EditorialFaltam idéias
A sequência de protestos que vem ocorrendo em várias partes do País tem fundamento. De fato, há problemas sérios, como o desemprego, a fome, a miséria, as doenças, as filas nos hospitais públicos, a falta de moradia e de terra para os sem-terra. É possível elencar muito mais questões que deixam o povo não apenas preocupado mas, em muitos casos, apavorado. Este despertar da cidadania, um dos resultados positivos do plano de estabilização da economia, faz com que a população não só perceba melhor seus direitos, mas lute por eles, inclusive com protestos e manifestações.
O que está faltando, porém, é a colocação de idéias, de propostas concretas no sentido de efetivamente corrigir estas falhas. Falar sobre os problemas, ir à praça pública, ou a Brasília, a fim de gritar palavras de ordem ou até para invadir o Congresso não é sequer uma forma inteligente de agir. Ao contrário, toda esta grita sobre a situação, os direitos, as necessidades, lembra muito os discursos demagógicos de tantas campanhas quando os ‘salvadores da pátria’ faziam eco ao sofrimento do povo, ganhando aplausos e votos, sem contudo anunciar de modo claro o que iriam fazer para corrigir os problemas e resolver as dificuldades. Hoje, os protestos em sua maioria parecem verdadeira repetição de uma fala demagógica que deveria ter ficado no passado.
As entidades que têm coordenado e realizado os protestos deveriam levar, além das palavras de ordem, propostas concretas e objetivas em relação a cada um dos problemas levantados. Esta sim seria uma contribuição efetiva ao próprio processo democrático. A falta de idéias ou sugestões acaba tornando as próprias manifestações vazias. Como disse o presidente Fernando Henrique Cardoso, quando informado sobre o protesto contra o desemprego que iria se realizar em Brasília (e que degenerou em conflito), ele também não é a favor da situação. O que poderia produzir resultados, então, seria a apresentação pelos manifestantes e pelas entidades de propostas objetivas.
No que diz respeito ao problema mais grave que os brasileiros enfrentam, o do desemprego, há enorme gama de atitudes que podem dar resultado, como os contratos temporários de trabalho. É uma idéia interessante, mas que também provocou protestos. Pois, como dizem muitas entidades, isto põe em perigo os direitos adquiridos dos trabalhadores. Ora, estes tais ‘direitos adquiridos’ constituem enorme entrave a quase tudo o que se pretenda mudar neste País. A Previdência quer acabar com as aposentadorias abusivas de enorme contingente de sanguessugas. Não pode: eles têm direitos adquiridos.
O grande direito dos brasileiros deveria ser o de trabalhar, de ter um emprego digno e um salário justo. Tudo o mais viria como consequência. O contrato de trabalho temporário é uma abertura. Outras medidas similares que desonerem a folha de pagamento, que reduzam o custo que um empresário tem com seus empregados, constituem alternativas válidas. Mudanças concretas na legislação sobre o trabalho rural podem abrir caminho fantástico para milhares de pessoas desempregadas no campo. Isto mexe com certos vícios implantados no País, boa parte das vezes de modo demagógico. Mas é uma alternativa real, é uma idéia que há décadas vem sendo apresentada e que não tem sido aceita pelos que enxergam apenas os ‘direitos’, sem ver a necessidade de uma mudança radical nos procedimentos da vida nacional para que se enfrente de modo correto o desafio que estamos vivendo.

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