Falta um crime ecológico
Candidatos a presidente da República fazem discurso por conveniência, sem levar em conta, necessariamente, a relevância do assunto para o País. Nos últimos tempos, têm falado muito sobre economia, para mostrar que o Brasil é diferente da Argentina. Segurança pública transformou-se em prioridade depois que o prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi assassinado. Não há dúvida de que são dois problemas gravíssimos, mas só entraram para a pauta política depois que tomaram conta da mídia.
Um dos temas mais importantes para o futuro da humanidade é, sem dúvida, a preservação do meio ambiente. No Brasil, particularmente, a destruição da natureza atinge proporções alarmantes. A cada dia que passa, a floresta amazônica perde um pedaço, como se não fosse essencial para as gerações futuras. Ainda não vi nenhum candidato falar disso.
A crise de energia do ano passado levou o governo a anunciar a construção de uma série de usinas hidrelétricas. Por mais que se façam estudos de impacto ambiental, nada impedirá mudanças profundas nas regiões das barragens. Matas virgens ficarão debaixo dágua, cidades inteiras serão alagadas. Até agora, os candidatos não trataram desse assunto.
O crescimento das grandes cidades destrói as nascentes de água e polui os rios. Brasília é um dos maiores exemplos dessa falta de critérios na ocupação das periferias. São cada vez mais frequentes os casos de contaminação do solo urbano com substâncias tóxicas despejadas por indústrias que funcionaram durante décadas sem fiscalização. Também sobre isso os candidatos permanecem em silêncio.
A omissão dos políticos deixa a lamentável impressão de que só uma grande tragédia ecológica será capaz de incluir o meio ambiente nas plataformas eleitorais. Não bastam as árvores que tombam regularmente na Amazônia e os rios que morrem aos poucos.
A devastação da Amazônia era absolutamente ignorada pelas autoridades até o final de 1988, quando o seringueiro Chico Mendes foi morto por fazendeiros do Acre. Os brasileiros nem sabiam que ele existia, embora fosse respeitado por muita gente séria pelo mundo afora. No ano seguinte, Rondônia foi atingida por uma grande queimada, e a floresta novamente virou assunto para os políticos.
Mais de uma década depois dos dois desastres, as questões ambientais foram novamente relegadas a segundo plano. É triste concluir que falta um grande escândalo ecológico para os candidatos se preocuparem com a preservação ambiental.
EUMANO SILVA é jornalista em Brasília





