A escola é o lugar onde se aprende a ler, escrever, fazer contas. O aluno também tem contato com a história, geografia e ciências, conhecendo o corpo humano, o relevo e as guerras que marcaram a humanidade. O estudante copia todo o conteúdo do quadro, lê as obras exigidas, decora as fórmulas e os macetes. Dessa forma, ele vai bem nas provas e passa de ano. Missão cumprida.

Para Hamilton Werneck, que é pedagogo, conferencista e escritor, o papel da escola não deve se limitar a aprovar aluno. É preciso ir além, oferecendo meios para desenvolver a criatividade e aguçar o senso crítico. Ele defende a escola empreendedora e a interdisciplinaridade, e afirma que atualmente os estudantes são meros repetidores, não sendo preparados para o mercado de trabalho.

Em entrevista à FOLHA, o pedagogo, que estará amanhã em Londrina, aponta ainda que o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é uma iniciativa positiva do Ministério da Educação. ''A prova é contextualizada e uma disciplina não termina e nem existe em si mesma.''

Em que consiste a escola empreendedora?
A escola dava a impressão de que não era um local para empreender. Ela perdeu o seu significado primitivo. Nós tiramos o nome ''escola'' da Grécia Antiga, para a qual o significado é muito mais próximo do empreendedorismo do que hoje. Em grego, escola é o lugar do sonho, da criatividade, onde você pode imaginar. Não existe nenhum empreendimento sem imaginação. A escola perdeu isso e ficou só com o som que vem do grego, perdendo a característica básica de projetar e imaginar. (Os alunos) São repetidores. Eles apenas repetem o que os professores falam. Isso prepara a pessoa para ser desempregada.
O modelo atual da escola prepara futuros desempregados. O aluno não movimenta a imaginação. Muitas vezes o que eles aprendem não tem significado. Por exemplo, uma prova questionou de onde vem a terra roxa da Região Norte do Paraná. O aluno respondeu que a terra é o resultado da decomposição do basalto. A professora deu certo. Eu perguntei para esse aluno se ele sabia o que era basalto e ele disse que não. Ele apenas reproduziu o que a professora escreveu no quadro. Ele respondeu corretamente a questão, mas não sabe nem explicar o que é o basalto e às vezes nem sabe que a terra ficou conhecida como roxa por causa dos italianos. Se o aluno não enxergar o significado ele não aprende.

Como reverter essa situação?
As propostas de mudança vêm há muito tempo. Antes da década de 1960, um canadense propôs o aprendizado significativo. O ser humano só guarda as coisas que têm significado para ele. Sendo assim, se o ensino não tem significado não serve para nada. O aluno pode até guardar algo em sua memória para fazer a prova e passar de ano, mas não para utilizar na vida. Uma pessoa que passa pela escola e não leva nada dela terá dificuldades para construir a sua vida profissional. Existe uma segmentação. O mundo do trabalho é uma coisa e o da escola é outra.

E esses dois mundos precisam ser unidos...
Exatamente. É preciso quebrar a visão cartesiana de que são mundos diferentes e procurar fazer com que as pessoas aprendam na escola o conteúdo de maneira que tenha significado e seja contextualizado. Não é uma coisa difícil de fazer. O professor precisa ter em mente que o aluno só aprende quando encontra significado no conteúdo ensinado.

Dessa forma a escola cumpre o papel de preparar o aluno para o mercado de trabalho...
Sim, pois vai ser uma pessoa que pensa, reflete, projeta, imagina. Apenas repetir o que está no quadro e na apostila não aguça o senso crítico dos alunos.

E de qem é a responsabilidade pela mudança: do professor, da instituição, do governo?
É de todo o conjunto, que não pode ser analisado de maneira segmentada. A cabeça do professor, a pedagogia da escola e toda a visão de educação do País precisam mudar juntos. Uma iniciativa positiva do Ministério da Educação é o Enem, pois essa prova é contextualizada e uma disciplina não termina nem existe em si mesma. Isso é muito bom porque a vida é totalmente interligada. A Lei de Ensino de 1996 já propõe que é necessário desenvolver temas transversais. A interdisciplinaridade é necessária.

Serviço:
A palestra 'Escola Empreendedora: Educação e Valores na Sociedade Pós-Moderna' será realizada amanhã, às 20 horas, no Boulevard Hotel. Informações pelo www.sistemamaxi.com.br.

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