Falsas previsões
Renan Calheiros
Uma semana após o governo autorizar o reajuste dos preços dos derivados do petróleo nas refinarias, verifica-se que os economistas do governo, por uma compulsão otimista, erraram longe as previsões. O impacto destes aumentos no já apertado bolso do consumidor foi além do projetado pelos economistas.
De acordo com as projeções dos economistas, o gás de cozinha iria subir em torno de 7%. Não foi o que ocorreu. O gás de cozinha teve seu preço aumentado em até 20% em algumas cidades. As passagens aéreas, que na visão do governo iria subir, perto de 11% foram reajustadas em 19%, tornando a viagem por avião um privilégio de poucos ou pessoas jurídicas.
Na gasolina também erraram os profetas dos números. Segundo os mesmos economistas, a gasolina para o consumidor, iria ter reajuste de, no máximo, 11%. Em várias cidades, como São Paulo e Goiânia, ela chegou a subir 16,8%. É muito provável que o impacto na inflação também supere o índice vaticinado por eles próprios.
Alie-se ao aumento dos preços dos derivados de petróleo, o reajuste dos serviços de telefonia, dos remédios, de energia elétrica em vários Estados e também a adversidade climatológica. O frio e as geadas e no Sudeste e no Sul do País irão prejudicar a safra de alimentos, e a consequência é o inevitável aumento nos preços. De acordo com os especialistas, pela soma destes fatores, a inflação de julho será maior do que a todo o semestre.
Na questão específica do petróleo, Brasil é atualmente o país que está na situação mais confortável para se tornar menos dependente dos humores do mercado internacional. Tendo em vista se tratar de um componente importante no índice de preços, caberia ao governo acelerar os estudos para definir a participação do álcool na matriz energética brasileira.
Mesmo com o frio prejudicando a cana-de-açúcar no Sudeste, a Região Nordeste tem condições de compensar esta quebra e irá produzir 45 milhões de toneladas de cana e precisa ser acompanhada de cautela quanto aos preços. Alagoas, o segundo maior produtor do País, irá contribuir com mais da metade desta supersafra, 25 milhões de toneladas.
Diante de uma abundância de cana-de-açúcar, de crises intermináveis do petróleo, chega a ser incompreensível a lentidão do governo na retomada do programa do álcool. Nesta última semana foram revogadas as comissões criadas anteriormente para estudar o assunto e foi criada mais uma comissão, no âmbito do Ministério da Agricultura.
O Novo Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool é composto, além do Ministério da Agricultura, pelos ministérios da Fazenda, Desenvolvimento e Minas e Energia e tem a missão de elaborar políticas sucroalcooleiras e definir os programas de produção e dispêndios para o álcool como combustível. Infelizmente, o novo decreto não fixa prazos para conclusão dos trabalhos, o que evidencia novamente uma falta de prioridade.
- RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça

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