20 de março de 2002. Durante a tarde, o cozinheiro José Fortunato de Paula, de 32 anos, chega de ônibus ao Hospital Universitário (HU) para realizar uma cirurgia de baixa complexidade, para corrigir uma secreção no ouvido. Após um erro médico - que está sendo discutido até hoje em duas ações que correm na Justiça -, o cozinheiro entra em coma e fica 30 dias na UTI. Ao acordar, verifica graves alterações em seu organismo: perda de controle dos membros, dificuldade em articular a fala e impossibilidade de andar normalmente. Nesta semana, cinco anos após a cirurgia, José Carlos falou à FOLHA sobre seu drama.

O que você fazia em 2002?
Trabalhava em dois empregos: era cozinheiro concursado do Restaurante Universitário da UEL e ajudava também numa pizzaria. Além disso, quando tinha alguma festa, ganhava um trocadinho para trabalhar na cozinha. Na UEL, cozinhava 200 kg de arroz no almoço e 80 kg de feijão, isso fora as 3 mil sobremesas para o dia seguinte, que também ajudava a preparar.

O que você pensava do futuro naquela época?
Pensava em dar um salto na minha vida, pagar as dívidas, dar uma ajeitada boa na casa da minha mãe e depois conseguir uma casa para mim. Também estava juntando dinheiro para comprar um carrinho, tinha arrumado o segundo emprego para isso. Depois da cirurgia, tudo isso acabou.

A cirurgia seria algo simples, não?
É. Disseram que iam me internar num dia, operar no outro, e no terceiro dia já poderia sair do hospital e voltar a trabalhar. Dos primeiros dias, só me lembro do comprimido que estava na boca, uma agulhada que tinha levado, e, depois, de mais nada.

Quando você percebeu que algo saiu errado?
Foi no quarto. Ainda estava muito sonolento, com as idéias sem sentido, mas fiquei pensativo em relação às minhas pernas. Elas tremiam muito, batiam o tempo todo, por isso estavam amarradas. Pensei que não ia mais poder andar. Também não conseguia segurar as mãos, a cabeça, e cheguei a cair umas três vezes naquele tempo. Recordo também de uma enfermeira que conversava muito comigo, e de um fisioterapeuta japonês que era bastante atencioso e me ajudava bastante.

Sua vida mudou em que sentido?
Em todos os sentidos. Hoje, as pessoas me vêem como um inválido. Antes, quando chegava o final de semana, saía com os amigos ou ia trabalhar, era tudo normal. Atualmente, poderia estar com um carro na porta, andando para lá para cá, e não estar parado em casa. Então, é uma coisa que eu queria que todos soubessem, do juiz às pessoas que me viram na televisão: não sou vagabundo, nunca roubei nada de ninguém, e tenho vontade de voltar a trabalhar, nem que seja voluntariamente.

E hoje, o que é o futuro para você?
Não tenho mais aquele ímpeto de antes. Meu futuro hoje é esperar que tudo dê certo com a indenização para ajudar as pessoas que necessitam da minha ajuda, especialmente minha mãe, que teve derrame depois de passar por tudo isso. Gostaria de montar um restaurante para minha família e ser gerente.

Como você vê a Justiça?
Por enquanto, não posso falar que foi falha porque o promotor de Saúde Pública, Paulo Tavares, foi muito justo com o meu caso e encaminhou o processo. Mas o julgamento está demorando muito, não aguento mais esperar. Eu sei que o juiz não tem só o meu caso, é muito processo, mas peço clemência, piedade, para que ele veja o meu lado também e me ajude. Se ele soubesse como é ficar dentro de casa 24 horas por dia, não poder viajar, perder os amigos... Às vezes, penso que não precisaria nem de julgamento se o advogado da UEL, o meu advogado e o juiz tivessem uma conversa digna e entrassem num entendimento. Assim, ninguém sairia machucado de maneira alguma.

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