Falência decretada
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de abril de 2014
Paulo César Régis de Souza 
São desanimadores os dados divulgados pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) sobre a dívida ativa da Previdência Social, ao final de 2013.
Atingiu exatos R$ 275.302.815.018,08.
Houve um crescimento de 8,58%, em relação a 2012.
Os créditos não previdenciários (tributários e não tributários) alcançaram R$ 997.878.075.967,12. Cresceram mais: 9,09%.
A PGFN recuperou em 2013 apenas R$ 4.735,148,773,61, para alegria e glória dos devedores.
Qualquer quitanda ou multinacional ou um grande banco que tenha recuperação de crédito tão inexpressiva não resistiria e teria sua falência decretada.
Isto, no mínimo, denota desleixo, descompromisso, desprezo e descaso com a coisa pública, em particular com o cidadão brasileiro que contribui para a Previdência Social, sonhando em ter uma aposentadoria digna e que lhe assegure uma velhice tranquila.
O nível da dívida ativa na PGFN alcançou recorde histórico de R$ 1,210 trilhão, quase 90% de débitos tributários. A PGFN conta com 2.098 procuradores, 1.333 servidores e 118 unidades e um estoque de 6,8 milhões de processos.
Pelo volume, qualquer turista do Gabão, menos desavisado, pode concluir que a dívida jamais será cobrada. Os devedores podem comemorar.
No caso da Previdência, o que surpreendentemente alarma é que a dívida voltou a patamares do tempo em que a decadência era de dez anos. Como se sabe, com a infausta decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que a reduziu de dez para cinco anos, 50% da dívida da época virou pó! Os devedores comemoraram com champagne francesa, proseco italiano e espumante gaúcho.
Preocupa-nos também que a Receita Federal do Brasil nada divulga sobre a dívida administrativa, cujo volume historicamente elevado, quando o TCU investigava, hoje é guardado a sete chaves e disponível apenas para os devedores que, aliados aos políticos caçadores de financiamento eleitoral, correm atrás de Refis do Refis.
A Previdência Social torna-se vítima. Os contribuintes são vilmente tungados. Os aposentados recebem benefícios cada vez mais minguados, menos de dois salários mínimos na média da concessão e da manutenção. As pensões se transformaram em queijos suíços.
É uma situação preocupante, principalmente porque não se vê esforço, empenho, diretriz, ação forte para profissionalizar a gestão de recuperação de créditos, uma das "commodities" da área financeira. Não precisa reinventar a roda. Basta ver o que fazem os bancos, as financeiras e as seguradoras para recuperar crédito. O mais simples é se ver no Brasil um carro ser apreendido na rua por que o comprador não pagou a prestação.
No fulcro da causa está a crença de que a Receita só arrecada na fonte. Aí o Leão vira leão, com juba, garras afiadas e baba excessiva.
Francamente, como previdenciário, me causa indignação que ministros, dirigentes do INSS, da Dataprev, da Receita Federal do Brasil, da AGU, da PGFN, se comportem passivamente diante da montanha de recursos, que pode chegar a R$ 300 bilhões em 2014, seja esquecida.
PAULO CÉSAR RÉGIS DE SOUZA é vice-presidente Executivo da Associação Nacional dos Servidores da Previdência e da Seguridade Social (Anasp)
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