FACES DO PARANÁ - Falta investimento no interior
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
O Paraná é um estado rico no contexto nacional, mas extremamente desigual. Essa é uma das principais conclusões levantadas pelo novo diretor de Planejamento Estratégico Regional da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano (Sedu), Luiz Figueira de Mello. Ex-presidente do Ippul e um dos idealizadores dos projetos Acquametrópole e Arco Norte, Mello disse nessa entrevista à FOLHA que quer ajudar a interiorizar o planejamento estratégico regional no Paraná.
Qual o estágio de desenvolvimento do Paraná?
O Estado fez um estudo bastante interessante - concluído no final do ano passado - que mostra uma grande distorção de desenvolvimento. Temos áreas ricas, como a região metropolitana de Curitiba, e outras regiões paupérrimas, com índices de desenvolvimento igual ao do nordeste brasileiro. Temos vários estados dentro do Paraná. Precisamos de coragem e compromisso para corrigir as distorções, promovendo desenvolvimento com inclusão social nas áreas mais deprimidas e sem muitas alternativas.
Dá para dimensionar a concentração?
Hoje, 61% da arrecadação de impostos está na Região Metropolitana de Curitiba, 9% no norte do Estado e 9% no oeste. Ou seja, o norte tem metade da população de Curitiba, mas sete vezes menos arrecadação. A concentração do parque industrial na Capital é muito grande. Embora sejamos um Estado com vocação agrícola, estamos transformando pouco a produção. Isso é problema porque a atividade está muito mecanizada, concentradora de renda e de mão-de-obra. Para mudar, temos que processar a produção e construir uma cadeia produtiva que empregue mais gente. Isso adquire ainda mais importância quando constatamos que mais de 80% da produção vem das pequenas propriedades agrícolas.
Isso significa que 61% da economia está na região de Curitiba?
Sim, significa que a economia formal do Estado está com 61% de sua geração de riqueza naquela região. Mas isso não aconteceu de graça. O histórico do nosso processo de desenvolvimento mostra que a distorção vem lá de trás. Em 1972 houve uma ruptura da política de distribuição da riqueza do Estado. Até esse ano, a região norte recebia 25% do orçamento estadual em investimentos e a região metropolitana 25% também. A partir desse fatídica data, Londrina passa a receber 4% do orçamento do estado e Curitiba 75%. Esse afluxo de interesses e recursos criou grande distorção.
Quais são os projetos para as regiões mais pobres?
A prioridade nos últimos anos foi o projeto de inclusão social nas áreas mais críticas que são norte velho, noroeste, centro-expandido e Vale do Ribeira. Mas há uma questão a ser levada em conta que é o distanciamento entre aquilo que o plano regional de desenvolvimento estratégico propõe e os encaminhamentos para o plano plurianual de investimentos - que orienta a aplicação dos recursos. Esse plano, invariavelmente, é fruto de pressões políticas e da própria articulação da sociedade, então, acaba privilegiando quem sabe exercer maior pressão - que são os maiores centros.
O setor de planejamento do governo está preparado para pensar o desenvolvimento integral do estado?
Algumas estruturas tem atuação muito próxima do interior, como Emater, Sema e Iapar. Por outro lado, temos também um distanciamento entre o ''staff'' que pensa o Estado e a realidade do interior. E por que isso acontece? As secretarias estão em Curitiba, os cargos de confiança também. Então há um olhar apropriado para a região metropolitana, mas muito superficial em relação ao interior. Isso é uma coisa histórica e cultural, por mais que você tenha um secretário, um governador comprometido com a transformação, a própria máquina pública está estruturada assim. Precisamos interiorizar o governo e essa é a estratégia que vamos ajudar a desenvolver na Sedu.


