Façam suas apostas, senhores - Maria Lucia Victor Barbosa
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sexta-feira, 23 de outubro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Nos estados onde haverá segundo turno as campanhas prosseguem. Possivelmente nestes casos, o interesse do eleitorado deve estar mais desperto, e quem sabe a quase apatia do primeiro turno dê lugar a uma observação mais atenta do povo com relação ao desenrolar do processo onde apenas dois contendores disputam o poder.
De longe espio Minas, e concluo que já não se fazem mais políticos mineiros como antigamente. Diante da dupla Itamar Franco/Newton Cardoso, recordo os versos de Drummond: Minas não há mais. Que pena essa política de chumbo das Minas Gerais. Muito mais mineiro está o presidente Fernando Henrique Cardoso, que ao ser perguntado em entrevista na TV Globo (Presidente, como é que fica em Minas, Itamar ou Azeredo?) respondeu com ares inocentes: Não fica nada. Não voto em Minas.
Em São Paulo, Mário Covas cresce na intenção de votos e se adianta a Paulo Maluf. Pudera! Covas ganhou declaração de voto dos petistas como José Genoino e Hélio Bicudo. E quem diria, até José Rainha hipotecou apoio ao candidato do PSDB.
Nada de novo, portanto, na geléia geral dos partidos. Principalmente depois que Cristóvam Buarque resolveu fazer aliança entre o seu PT e o PFL, um estranho casamento que quando foi realizado com Fernando Henrique em 94 foi abominado com todo rigor pelo purismo petista. Diante disto me pergunto três coisas: como querem que o povo vote nos partidos, se eles não existem? Como fica a cabeça dos militantes diante do inusitado dos fatos do seu partido? Não existe pecado do lado do PT?
Enquanto as campanhas vão se aproximando do desfecho, Luiz Inácio Lula da Silva se distrai, quem sabe para amenizar a frustração da terceira derrota. Ele circula pelo Brasil posando de grande líder, como gosta de fazer. Busca votos para seus candidatos, e a esperança de vitória para o PT pode estar no Rio Grande do Sul, onde o pernambucano Lula se declara gaúcho de adoção, em Mato Grosso do Sul e, com mais certeza, em Brasília. Qualquer ganho pode ser prêmio de consolação, apesar de não ser consolo para a triderrota presidencial.
Mas ainda que algumas esperanças consoladoras sejam vislumbradas pelo Partido dos Trabalhadores, o humor de Lula não deve ter estado muito bom nesta semana. É que Fidel Castro se derramou em elogios ao presidente Fernando Henrique Cardoso no longo discurso de 72 minutos que pronunciou na reunião de cúpula ibero-americana. Fidel disse estar ciente que: Este discurso vai provocar um conflito com a esquerda e, se fosse antes das eleições eu não saberia onde me meter.
O ditador cubano, na verdade, acabou deixando Lula bastante amuado. Inconformado, o petista se vingou dizendo que Cuba não era a democracia dos seus sonhos. Infeliz resposta, uma vez que o governo castrista nunca foi democrático. Pelo contrário, é uma ditadura das mais ferrenhas, e que completa no ano que vem 40 anos. Se Pinochet acabar sendo preso pelas acusações de assassinato dos seus compatriotas, cometidos durante seu governo ditatorial, Fidel Castro deveria também se cuidar ao andar por aí. Afinal, o líder barbudo de Cuba e, ao que parece, ex-ídolo do igualmente barbudo Lula, passa às léguas dos direitos humanos. Isso porque o regime cubano não passa de um arremedo tropical do ex-império soviético, ao redor do qual gravitava. Um império tenebroso onde a ditadura não era do proletariado, mas do Partido, e no qual se torturava, matava ou, no mínimo, se considerava louco o dissidente, o qual era internado para sempre nos hospícios do Estado todo-poderoso. Um império onde a liberdade inexistia e a história era abolida. Um império que era a antítese da democracia, essa invenção burguesa tão detestada até há pouco tempo pela esquerda quanto o estado de direito onde deve prevalecer a lei e não o arbítrio ou o capricho do ditador.
Diante da frase de Lula vale perguntar: qual será a democracia dos sonhos do PT? Talvez não haja resposta para essa pergunta, pois assim como o PT jamais soube dizer a que socialismo se referia como sendo sua ideologia, possivelmente não saberá definir qual é a democracia dos seus sonhos. Seria a democracia de líderes dos sem-terra que apóiam Lula, como Jaime Amorim que, nas páginas amarelas da revista Veja pregou abertamente a revolução armada, e apontou como sendo seus gurus Marx, Lenin, Stalin, Che Guevara, Fidel Castro, Mao Tsetung etc. etc., ou seja, a fina flor do totalitarismo?
Mas enquanto em alguns estados do Brasil as campanhas prosseguem, no Paraná é como se as eleições tivessem ocorrido há muito tempo. Essa sensação aparece sobretudo quando se percebe que nos bastidores da política já se começa a articular as composições para as próximas eleições, e isto apesar dos recém-eleitos ainda não terem tomado posse. Concentrações de poder estão visíveis, inclusive, em fortíssimas oligarquias familiares. A mesa dos jogos do poder começa a ser posta e, em breve, dirão novamente para nós, eleitores: Façam suas apostas, senhores. E não é que de tanto jogar, estamos aprendendo alguma coisa?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


