Façam o que eu digo
A apatia dos norte-americanos pelas eleições, em qualquer nível, já se tornou histórica. Este ano, apenas 46% da população foi às urnas. Ficou a sensação de que o resto do mundo Brasil incluído acompanhou com mais atenção a disputa entre George W. Bush e Al Gore do que os próprios eleitores dos Estados Unidos. É possível que, a essa altura, saibamos mais do que eles como funciona o sistema eleitoral de lá, quantos votos são necessários para um candidato vencer no colégio indireto de votantes e quantos desses votos vêm da Flórida. Afinal, foram 36 dias de lenga-lenga jurídica.
Em princípio, parecia que a apatia vinha da própria chatice da eleição. Os dois candidatos mais fortes costumam ser muito parecidos entre si. É quase impossível dizer as diferenças entre Bush e Gore. Os dois têm discursos distantes da vida cotidiana da população, não têm propostas para os jovens nem para os mais velhos. No fundo, tanto faz um quanto o outro.
Com a disputa presidencial resolvida no tapetão pela Suprema Corte, é possível entender um pouco mais a apatia dos norte-americanos pelas suas eleições. Na prática, o voto não vale nada. Por que alguém se empenharia em conhecer as propostas de ambos os candidatos, convencer-se de qual é o melhor deles e sair de casa para votar se, no final das contas, a decisão não serve para nada? Puro tempo perdido. Melhor não ir às urnas mesmo.
A pouca importância dada ao voto nos Estados Unidos explica também por que a maior potência do mundo, do ponto de vista econômico e tecnológico, ainda tem um sistema de votação e apuração dos anos 40. Por que investir em alguma coisa que não serve para nada? É jogar dinheiro fora. Pela mesma razão faltam aos norte-americanos parâmetros rígidos de contagem dos votos.
A vitória de Bush não faz diferença nenhuma. Nem para o resto do mundo nem para os norte-americanos. A única vantagem desse episódio, se existe, está no plano intelectual. Aprendemos um pouco mais sobre o que acontece por lá. O suficiente para considerarmos as cobranças dos Estados Unidos sobre democracia no quintal dos outros como mais uma atitude dentro do velho estilo de façam o que eu digo e não o que eu faço. Fidel Castro, presidente de Cuba há 40 anos e considerado um ditador por não promover eleições livres e democráticas na ilha, deve estar rolando de rir.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo
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