A escassez de mão de obra no Brasil, principalmente em áreas como engenharia e tecnologia da informação, é evidente. A solução encontrada por muitos empresários é montar seu próprio curso de formação.
O empresário Ater Cristófoli, de Campo Mourão (Noroeste), foi um desses. Representante de produtos odontológicos, resolveu montar uma fábrica de nível tecnológico médio em uma cidade predominantemente agrícola. ''Quando me dei conta que faltava mão de obra qualificada, montei a Fundação Educere. Por sorte deu certo. Hoje somos também uma encubadora de empresas'', conta.
Para Cristófoli, não é obrigação dos empresários se preocuparem com a formação de profissionais. E ele defende que a educação de base é o que vai garantir que, no futuro, não haja falta de profissionais qualificados. ''A educação é um excelente negócio. Pena que o nosso governo não se atentou para isso, porque os frutos são colhidos depois de 20 anos. A minha empresa está crescendo, está avançando, porque eu invisto na capacitação dos meus funcionários. É um excelente negócio'', ressalta.
Com a falta de profissionais capacitados, está se tornando comum as empresas investirem em formação. O senhor acredita que esse seja o caminho?
Não, porque nunca vão ter a capacidade de desenvolver projetos de grande volume como tem o poder público. A minha iniciativa em Campo Mourão atende a minha empresa e mais uma meia dúzia. E não é assim que se desenvolve, mesmo em uma cidade pequena como Campo Mourão.
Se as empresas começarem a investir nisso pode gerar uma acomodação por parte do governo?
Minha opinião é de que o governo já se acomodou. Acontece igualzinho com o atendimento médico, por exemplo. Nós não temos um atendimento médico decente, recorremos aos planos particulares. Não temos segurança pública, contratamos o monitoramento privado. E assim também com o apagão da mão de obra.
Como preencher essas lacunas? As empresas ficam em uma situação delicada, uma vez que precisam de mão de obra qualificada e não têm. O que pode ser feito?
Eu tenho recebido na minha empresa universitários semianalfabetos, que vêm fazer teste. Estou montando uma fábrica na China e aí podemos ver bem o que funciona e o que não funciona. Todo mundo diz que a grande vantagem da China é a mão de obra barata. Posso dizer com certeza que a grande vantagem da China é a mão de obra chinesa. Isso é resultado de um grande investimento que começou há 40 anos em educação básica de qualidade.
Tudo que a gente pode fazer agora é apagar incêndio. Não é o que resolve de fato. A minha iniciativa com a Fundação Educere me ajuda na minha empresa, mas não resolve a coisa. O que resolve mesmo é educação básica de qualidade, com investimentos de 20, 30 anos. Aí é que vai nascer o bom técnico, o bom engenheiro. Só para ter uma ideia, a China está formando 450 mil engenheiros por ano, contra pouco mais de 30 mil engenheiros brasileiros.
O senhor acredita que as universidades estão muito longe da prática?
Eu tenho certeza absoluta. Outra razão do sucesso da China hoje. As universidades chinesas são orientadas para atender as necessidades de mercado, muito diferente do que está acontecendo no Brasil.
Médias empresas também podem fazer parcerias com universidades para criação de universidades corporativas?
A minha é uma empresa média. Eu - não só porque tenho poucos recursos, mas um pouco de visão e valorizo a mão de obra qualificada - fiz esse investimento na Fundação Educere. A Votorantim, a Embraer, a Petrobras, têm projetos como esse, em escala muito maior, mas é a mesma coisa. É o salve-se quem puder. Cada um que se arranje. Isso não vai resolver. O que resolve mesmo é uma política ampla do poder público.
E as pequenas empresas?
O que está acontecendo é que nossas empresas estão ficando pouco competitivas. As que conseguem atender o mercado nacional e aproveitar esse ''bem bom'' que está agora estão indo bem, mas veja o nível de competitividade das nossas empresas na hora de exportar. Não tem competitividade porque não tem produto diferenciado. Quando tem produto não tem preço para competir com a alta tecnologia dos países de Primeiro Mundo ou com o preço baixo dos chineses. As empresas que estão indo bem são as que estão entendendo o mercado brasileiro e alguma coisa do mercado sul-americano.
Os empresários só se preocupam quando falta funcionário especializado?
O empresário, assim como o funcionário, é resultado da educação que nós temos. Se o nosso empresário não tem uma boa formação, não fala inglês, não tem uma visão de mundo, já começou a perder. Quando vai contratar, ele vai com essa visão, uma visão de que tem que pagar menos, de que tem que dar um jeitinho. E aí todo mundo perde. Perdemos para os europeus, japoneses e americanos quando se fala em qualidade e inovação e perdemos para os chineses e orientais quando se fala em preço. E eu me incluo entre os empresários brasileiros.

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