O projeto de lei que impede governantes e políticos de contratar parentes não é a salvação da pátria, mas já é um pequeno avanço nos ideais de moralização da vida pública. O Congresso Nacional ensaia medida nesse sentido e agora também a Assembléia Legislativa do Paraná passará a discutir proposta idêntica, por via de projeto do deputado Tadeu Veneri. Mas, no que respeita aos parlamentares, a função deles é muito mais importante que isto e deve voltar-se principalmente para a apresentação e discussão de projetos de grande relevância. O mesmo se dá com os poderes executivos, que têm, como diz o nome, a função primordial de executar. De qualquer modo, tem ocorrido a imoralidade de certos parlamentares e ocupantes de escalões funcionais elevados não contratar parentes mas os repassar para colegas, estabelecendo um intercâmbio de contratações. Por outro lado, há que ressalvar os casos em que o contratado, mesmo que parente, tem comprovada competência para a função e é de grande utilidade. Fossem mais honestos os homens públicos, a população não reagiria ante o nepotismo nesses casos. Mas como há baixa confiança neles, mesmo a contratação de bons auxiliares/parentes é repudiada e os cidadãos não acreditam em argumentos de competência. O mal está na origem e no pouco lisonjeiro histórico da gestão dos políticos brasileiros, ou ao menos da maioria. Eles criaram essa imagem turva que os envolve, e quase tudo o que fazem é cercado da desconfiança do povo. Por via das dúvidas, mesmo que bons profissionais e serviços percam, a não-contratação de parentes é a melhor garantia de não pecar. Mas o nepotismo ainda não é o pior mal e sim as negociatas, as acomodações e outras permissividades comuns no meio governamental, que contemplam a velhacaria e prejudicam a nação. Mesmo quando verbas sub-reptícias, canalizadas para gente do poder, tenham origem privada, o povo de alguma forma acaba pagando a conta, porque ninguém concede algo a agentes da esfera pública sem a contrapartida de um benefício. A corrupção ou tem coniventes do próprio meio ou tem mão dupla envolvendo segmentos da atividade privada. Um projeto de lei ideal seria o que tivesse o condão de restaurar a moralidade, mas esta não se impõe por decreto. A comunidade parlamentar ganharia em qualidade se voltasse suas atenções para a criação de novas leis e novos sistemas, de forma a promover o desenvolvimento econômico, político e social, enfim desobstruir os caminhos do progresso. Esta é a razão primordial da existência dos governantes, aí entendida também a classe de políticos ocupantes de cargos. Não se despreza o projeto de extinção do nepotismo, mas este é apenas um detalhe e não um grande ponto de partida para o saneamento da função pública.

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