Miguel Ignatios
As exportações brasileiras já registraram pequena reação nos meses de abril e maio. Os superávits comerciais foram modestos mas a tendência é a de que de junho em diante cresçam em consequência de dois fatores: a paridade de R$ 1,70 para cada dólar, considerada ideal por exportadores; e a entrada no mercado da safra agrícola, que acaba de ser colhida. Tradicionalmente, as exportações costumam aumentar durante o segundo semestre do ano devido aos embarques das commodities agrícolas para o exterior (complexo soja, café, açúcar, cacau e suco de laranja, dentre outras).
Infelizmente, apenas as commodities de exportação não serão suficientes para gerar o superávit anual de US$ 11 bilhões acertado no acordo feito com o FMI. Até porque, de acordo com analistas internacionais, as cotações dessas mercadorias deverão, em média, baixar entre 3% e 5%, por excesso de oferta.
A proximidade do segundo semestre é uma excelente ocasião para as autoridades governamentais da área de comércio exterior fazerem um balanço crítico a respeito do relançamento do export drive brasileiro.
Durante a década de 80, pressionado pela alta do petróleo, que gerava crescentes déficits na balança comercial do País, o Itamaraty lançou a política de parceria com os principais exportadores de petróleo, concentrados no Oriente Médio. A lógica de tal estratégia era simples: era preciso oferecer mercadorias e serviços para nossos parceiros comerciais, subitamente enriquecidos por enormes superávits gerados pelos petrodólares.
Esse esforço mercadológico abriu os mercados do Oriente Médio para produtos brasileiros de exportação que até então jamais haviam sido consumidos por países daquela região. Em poucos anos, os abastados árabes passaram a consumir frango, suco de laranja, carne bovina, calçados e até automóveis brasileiros.
No rastro da diplomacia comercial brasileira, nossas empreiteiras (Norberto Odebrecht, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, dentre outras) começaram a disputar concorrências públicas para grandes obras de infra-estrutura feitas no Oriente Médio (estradas, portos e usinas para geração de energia elétrica). Com isso, abriram mercados pioneiros para a exportação de serviços de engenharia e de projetos brasileiros.
Aos poucos, nossa balança comercial conseguiu equilibrar-se. Hoje, está na hora de o governo lançar nova ofensiva comercial semelhante à da década de 80. Contudo, em nosso entendimento, ela deveria detectar novos parceiros e oportunidades comerciais particularmente em três regiões: na América do Sul, com os países da Comunidade Andina; no Oriente Médio, África e Indonésia, com os grandes exportadores de petróleo; e na China, única nação asiática com altas taxas de crescimento.
Esse novo export drive deverá aproveitar a experiência acumulada por nossas grandes empreiteiras em obras realizadas no Exterior. Só que desta vez, ao contrário do que ocorreu na década de 80, o BNDES e os bancos privados também entrariam na parceria.
A falta de apoio financeiro oficial (BNDES) e privado exauriu o esforço pioneiro das empreiteiras da década passada. Terminadas as obras, que duram em média dez anos, elas tiveram de voltar para casa, sem ânimo para, sozinhas, enfrentar novamente a concorrência de grupos consorciados americanos, europeus, japoneses e coreanos. Em todos eles, há a presença firme de bancos oficiais e privados em parceria com as construtoras.
Já é hora de corrigir a falta de visão histórica de nossos governantes. Diz a voz do povo que erros ensinam mais do que acertos. Governo e bancos deveriam refletir sobre isso e partir para a ação. Felizmente, ainda há tempo.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
E-mail: [email protected]

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