Expor desnecessariamente a vida (Valmor Maccarini)
Expor desnecessariamente a vida
Walmor Maccarini
Chegar ao topo de uma montanha não prova coisa alguma. Não faz de nenhum ser humano um herói. Por isso não dá para fazer heróis estes alpinistas do Aconcágua, que ao desafiarem a vida encontraram a morte. Dolorosa que tenha sido a tragédia, enlutando familiares e amigos, só resta o tributo à dor por estas perdas; e por essa desavisada inocência de quem expõe desnecessariamente a vida a perigo.
O homem é livre para as suas condutas, mas a vida nos é outorgada, é concessão divina. Não podemos dispor dela como num jogo de dados.
A aventura do alpinismo, do montanhismo de risco ou o nome que se lhe der, e de outros tantos esportes glamourosamente denominados radicais, é sem dúvida uma demonstração de intrepidez e coragem, mas antes de tudo uma irresponsável exposição à morte.
A meta desses aventureiros é fincar lá no topo a bandeira de seu país, menos por patriotismo e mais para atender a apelos do ego.
Fosse essa escalada uma missão de resgate, ou a busca de uma resposta para algum problema de nossa aldeia ou da humanidade, e já teria valido a pena. Mas não assim de graça. Não se pode expor o corpo físico a riscos inúteis. Nem devemos, agora, cultuar esses alpinistas como heróis, até para não estimular crianças e adolescentes a se entusiasmarem com tais aventuras e buscarem fazer o mesmo. Não vamos qualificar tais façanhas como algo de valor, porque temos uma responsabilidade perante a vida e o dever de dignificá-la. Galgar uma montanha ou descer ao abismo, com todos os riscos daí decorrentes, será uma exaltação à vida se houver uma boa razão, que não a pura satisfação de excentricidades.
O homem pode chegar a alturas inimagináveis, se o desejar, por mais amenos e produtivos caminhos...
O corpo humano é, enquanto vivo, um santuário, porque guarda o Espírito. O Espírito preside o corpo, que é o envoltório que temporariamente o abriga para que cumpra sua jornada terrena. É preciso, então, preservar essa valiosa embalagem carnal. Expor desnecessariamente a vida do corpo, levando-o à invalidez ou à morte, não é tirar a vida do Espírito mas interromper a sua trajetória. É do livre arbítrio do homem utilizar como quiser o seu corpo, mas se brincar irresponsavelmente com ele, disto terá que prestar contas.
Nós somos Espírito temporariamente habitando um corpo carnal, e não um corpo carnal que possa evoluir para uma forma espiritual. Por isso, enquanto pulsar um coração nesse santuário que é o corpo humano, nós temos com ele uma responsabilidade. Mesmo que a razão às vezes não o identifique, há algo maior em nosso ser além dos sentidos.
Expor alguém a perigo de vida implica em sanções da lei dos homens, então por que essa tolerância com quem expõe a perigo a própria vida?! Por que tanto aplauso a essas façanhas de risco? Mas não só o alpinismo, e sim todas as práticas radicais rotuladas de esportivas, como o boxe, que tem levado lutadores à caducidade e à morte; o pára-quedismo de aventura, que frequentemente faz vítimas; o automobilismo de competição, que incorpora ao espetáculo os acidentes e a própria morte; o abuso da velocidade de quem trafega pelas estradas e pratica caprichosamente manobras perigosas. Etc.
Os caminhos da emancipação do homem não são estes. A espécie dos seres terrestres não haverá de ser consagrada por estes feitos, em verdade monumentos às vaidades humanas. Essas aventuras não levam o homem a descoberta nenhuma, não o melhoram e nem melhoram o seu país nem a humanidade. A grande escalada do homem não será galgar montanhas inutilmente, com risco calculado de morte, nem esmurrar até à exaustão o seu semelhante, nem praticar saltos mortais para atender não a uma causa, mas apenas ao apelo da emoção e da irresponsabilidade com a própria vida; não será submeter o corpo físico a provas de resistência apenas para figurar num livro de recordes; nem entregar o corpo à química das drogas e do fumo e ao sexo de alto risco ante a realidade da Aids, e por aí.
Essas inúteis façanhas radicais do homem o fazem pequeno, porque são limites muito curtos para as suas ilimitadas potencialidades.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina





