A cada dia, cerca de 80 denúncias de exploração sexual infanto-juvenil chegam ao Disque 100. Dados da Unicef de 2008 mostram que 150 milhões de meninas e 70 milhões de meninos são vítimas no mundo todo. Uma iniciativa nacional para reduzir essas estatísticas é o Programa ViraVida, lançado em outubro em Londrina.
O ViraVida consiste na parceria entre empresários, prefeitura, ONGs e instituições sociais e religiosas para garantir aos jovens acesso a cursos de formação profissional, educação básica continuada e noções de empreendedorismo, além de atendimento psicossocial e apoio às famílias.
Para a socióloga Glória Diógenes, as maiores dificuldades no enfrentamento à exploração são a questão cultural e a falta de mobilização da sociedade. ''É preciso que a sociedade entenda que o crime muitas vezes compromete a vida inteira de uma menina ou menino. É importante que o enfrentamento da exploração sexual passe a ser percebido'', cobra.
Como a sociedade pode contribuir para combater a exploração sexual?
Primeiro, deixando de banalizar. Muitas vezes vemos em restaurantes, em locais de lazer, homens com meninas bem mais jovens e ninguém diz nada, não denuncia. A primeira coisa é se indignar, é dizer não. Nossas crianças e adolescentes devem ser protegidas, devem ter direito ao tempo de construção do seu desenvolvimento psíquico. A segunda coisa é denunciar. Nós temos o Disque 100, que é nacional e recebe uma média de 80 denúncias por dia. Temos também os conselheiros tutelares. E a terceira é se engajar. Há diversas formas de engajamento: conselhos municipais, comitês Nacional, Estadual e Municipal de Enfrentamento à Exploração Sexual, agora temos o ViraVida.
Como funciona o projeto?
O projeto ViraVida é de combate à exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Ele é voltado não para o abuso, que, no geral, é uma experiência intrafamiliar. No projeto as crianças e adolescentes têm toda uma perspectiva socioeducativa e precisam que a sociedade possa ultrapassar o preconceito e ver esses adolescentes como cidadãos.
Percebemos que existem alertas para os jovens, mas mesmo assim eles se envolvem em situações de exploração. Por que isso ainda acontece?
Acho que nós criamos políticas sociais que, até então, não mergulharam no código de compreensão de mundo desse segmento. Para um adolescente que ultrapassa os conselhos da família, ultrapassa as fronteiras da responsabilidade, com inserção no álcool, nas drogas, qualquer política social tem que levar em conta essa complexidade.
Eles têm um apelo muito forte pela sociedade da imagem, pela estética, pela aparência, pela vaidade. E nós, em geral, quando contruímos uma política social, sempre achamos que esse é um aspecto menor. O dinheiro que se ganha possibilita que a vaidade seja atendida, o reconhecimento que não se teve por qualidades pessoais ou pela apresentação. A política social deve mexer com todos esses fatores, principalmente com este último.
O VivaVida tem algo de diferente nesse sentido?
O ViraVida leva em conta os valores. São entidades dos municípios que fazem o elo com o ViraVida. Segundo ponto é que o que os adolescentes querem também conta. Em cada local os meninos e meninas são ouvidos e se cruza a necessidade do mercado com os desejos deles, para que sejam oferecidos os cursos.
As pessoas ainda não se dão conta de que exploração sexual acontece ou fingem que não acontece?
Há lugares, principalmente no Norte do País, onde essa situação é mais grave. Nas festas que dão, fazendeiros levam meninas novas. Em barracas de praia se nota muito a presença de estrangeiros com meninas de 14, 15 anos. Nós estamos enfrentando uma brigada cultural também. É preciso que a sociedade entenda o crime que muitas vezes compromete a vida inteira de uma menina ou menino.

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