Expedições pioneiras: 90 anos


Humberto Yamaki
Humberto Yamaki

Aventurar pelo Norte do Paraná, nesta época de chuvas intensas, é experiência única. O lamaçal e os ribeirões de água vermelha contrastam com os tons de verde. Faz-nos sentir um pouco pioneiros.
Nessa paisagem terra-roxa, algumas estratégicas rotas de exploração da década de 1920 sobrevivem como estradas. Outras foram gradativamente abandonadas ou desapareceram frente às novas ordenações. Em comum, o fato de que poucos conhecem sua gênese. Raros são os que vivenciaram ou se lembram da importância e significado desses antigos caminhos e referencias. Os nomes das estradas e lugares nem sempre são preservados. Inexistem placas indicativas ou informativas sobre essas importantes rotas pioneiras.
Há 90 anos, em outubro de 1925, o governo do Estado efetuou a venda de terras devolutas à Companhia de Terras Norte do Paraná e reserva à Companhia Marcondes de Colonização. Visava a realização de planos de viação e de povoamento do Norte e Noroeste do Estado.
Apesar de pouco conhecidas, várias expedições de reconhecimento foram realizadas à região na década de 1920. Eram comandadas por burocratas do governo, técnicos das companhias e fazendeiros conhecedores de terras.
Em pesquisas nos últimos anos, identificamos quatro expedições, realizadas entre 1925 e 1929. Todas seguiam o eixo Norte-Sul pela zona do Pirapó, ou ainda, o eixo Leste-Oeste, via Paraguaçu ou Ourinhos. Partiam de estações da linha Sorocabana no estado de São Paulo.
As expedições tinham como objetivo conhecer os projetos de colonização em andamento, certificar sobre a existência das terras devolutas, observar a fertilidade do solo, salubridade, água potável em abundância, disponibilidade de madeiras nobres e, finalmente, o clima. Este último, através da observação de marcas de geadas. Viajavam em "fordecos", balsas, canoas e mulas. Utilizavam como referencias as antigas picadas, marcos de delimitação de lotes, linhas de concessão, rios e corredeiras, fazendas, capelas e ruínas jesuíticas dispersas pela floresta. Eram verdadeiros caçadores de paisagens.
Dentre as várias expedições, com diários e relatos, podemos destacar uma, inédita. A recém-descoberta Expedição Cordeiro (1925) visava subsidiar a cessão de terras para as companhias de colonização. Foi realizada em meados de 1925, por um inspetor de terras do governo, antes da assinatura do contrato com a CTNP e a Cia Marcondes.
Cordeiro visita inicialmente as terras da Marcondes na linha Sorocabana (SP), nos arredores de Presidente Prudente. Fica impressionado com a qualidade dos serviços de demarcação de lotes, a técnica empregada na construção de estradas e a implantação de núcleos coloniais.
Rumo ao Paraná, segue uma estrada em ótimas condições e atravessa o Paranapanema. Explora o vale do Pirapó, sempre em direção ao divisor de águas com o Ivaí. Na margem direita encontra uma boa estrada de dezesseis quilômetros, com hotel em construção, balsa e reserva para núcleo urbano. Observa, então, várias demarcações de lotes, já vendidos, pela Marcondes. A abertura na mata avançava até o quilômetro cinquenta. Na outra margem, encontra uma picada de mais de cem quilômetros. Esta seria mais tarde rebatizada pela CTNP como "Estrada Inglesa". Local do lendário Hotel Pirapó.
O resgate da Expedição Cordeiro (1925) permite reescrever parte da história oficial, até então baseada na versão de ineditismo e inventividade das ações da CTNP. Confirmamos também a existência de duas outras expedições, da própria CTNP, precedendo a comemorada "caravana inicial de 1929".
Preservar as antigas rotas de expedições, as paisagens cênicas históricas e recuperar os nomes de lugares, são temas essenciais nestes 90 anos de assinatura do contrato de compra de terras devolutas pela CTNP e Cia Marcondes. As paisagens refletem nossos ideais ao longo do tempo.

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