Expectativas para a construção
Junker de Assis Grassiotto
Vivemos um período de ajustes. Isso perdurará por mais dois anos, no mínimo. Só teremos crescimento acima de 3% após 2019, quando um novo governo assumir e efetuar profundas reformas estruturais.
Em setembro foi registrada a saída de R$ 5,3 bilhões da poupança R$ 54 bilhões, nos 9 primeiros meses. Essa fuga se deveu a diversos motivos, mas principalmente à alta da Selic para combater a inflação e evitar a fuga de capitais. Ocasionou duplo impacto: reduziu o ritmo de captação e elevou o custo das Letras de Crédito Imobiliário (LCI), aumentando as taxas dos investimentos. Essa questão foi a mais importante porque em 2014, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) respondeu por 80% do crédito habitacional, que disponibilizou R$ 113 bi em recursos em 2003 esse valor tinha sido de somente R$ 6 bi, a preços de hoje (A. M. Castelo).
Ainda que a construção não se dedique só ao mercado imobiliário, pois atua também na execução de indústrias, empreendimentos comerciais e desenvolvimento da infraestrutura, os valores acima dão bem a dimensão da importância desse segmento. Retrospectivamente, se pode contextualizar um panorama para o futuro.
Entre 2004 e 2013 o PIB da construção cresceu 57% e, nela, o número de empregados com carteira assinada cresceu 165%. Enquanto isso, o PIB nacional cresceu 39% (A. M. Castelo). A participação do crédito imobiliário no PIB saiu de 1,3% em 2004 para 9,4% na atualidade (T. Rezende): impressionante. Destaque-se aí o subsídio às famílias de baixa renda, especialmente pelo programa "Minha Casa, Minha Vida" que transformou carência em demanda.
Esse direcionamento do governo que visou criar empregos nas áreas urbanas e atender à demanda por moradia, levou a um superaquecimento do mercado de imóveis com um boom de lançamentos e acentuado aumento dos preços.
Agora, os recursos escassearam porque a expansão do crédito foi muito maior do que a expansão da poupança. A fonte secou. O número de novos empreendimentos caiu verticalmente e as incorporadoras estão focadas na comercialização dos imóveis prontos e nos que ainda estão em produção. No mercado paulistano há um estoque de 28 mil apartamentos (Secovi) e os próximos 2 anos serão dedicados a vendê-los. A transição de um patamar de euforia para outro mais realístico pode afetar duramente o presente. A procura continuará fraca por algum tempo. As dificuldades das famílias endividadas não serão resolvidas rapidamente. Ocorreu uma antecipação da demanda, possibilitada por crédito abundante. As empresas agora se deparam com o desafio de aumentar a produtividade.
Entretanto, até 2024 cerca de 15 milhões de novas famílias deverão se formar (A. M. Castelo) e o deficit habitacional ainda é da ordem de 6 mi de unidades. Caminhamos na direção de um novo ciclo de crescimento. Antes, porém, terá que ocorrer um rearranjo dos meios de financiamento. Nessa retomada inevitável teremos uma maior participação do setor privado, especialmente dos investidores particulares, pois o atual modelo está esgotado. Um exemplo dessa nova tendência já foi a criação das LIGs.
O que mais preocupa é a falta de infraestrutura pública. O modelo das PPPs ainda não deslanchou. O governo optou por privilegiar o consumo. Continuamos sendo um país em que quase tudo continua por fazer. Nossa capacidade de investimento em relação ao PIB tem que passar dos atuais 18% para aproximadamente 25%, porcentagem adequada para um país com o nosso nível de desenvolvimento. Com isto as oportunidades serão inúmeras.
O primeiro passo é sanear as finanças do governo. A atual desorganização anula seu poder estratégico: menos de 10% do orçamento federal é gasto discricionário, mais de 90% é gasto obrigatório. O ajuste tem que tratar receitas e despesas como um todo e reordená-las à luz de um projeto de país. Crise é condição de mudança. Onde falta dinheiro, tem que sobrar política e imaginação.
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres.
Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br





