Trump possuiu uma arte extraordinária de roubar a estética ao existir humano. Suas mentiras são tão deslavadas e perversas, que arruínam a confiança do ser humano em si mesmo. Trata-se de filme déjà vu! Quem viajar no tempo até a década de trinta do século passado, não terá dificuldade de encontrar os protótipos e a gênesis desta encenação grotesca, levada a cabo pelo candidato republicano.

No passado como agora, o escopo é romper as barreiras do bom senso e fazer o cérebro crer que o absurdo, afinal, tem mais lógica do que dizem por aí! Não tem nada de amadorismo! Trump é um estratego nato, embora envolto por um furacão de ideias que varrem os EUA há muitas décadas e agora se configuram mais palatáveis a cerca de metade dos americanos. Dito sem rodeios: A América nunca foi pacificada! Trump deu voz e vez aos ressentidos, frustrados, ignorados, raivosos, falidos e outras classificações humanas, naquele país! Já venceu uma vez. Pode consegui-lo outra!

O Partido Republicano não era assim. Nunca o foi. Antes mesmo de entrar na Casa Branca, Trump já tinha conseguido o seu primeiro feito: perverter o partido, tornando-o um lacaio a serviço do seu projeto de poder. Disposto a tudo! Embora mais de 100 ex-funcionários republicanos, incluindo antigos servidores do seu governo (2017-2020), declarassem apoio à aspirante democrata à Casa Branca, vimos com pesar, que a grande maioria se aquietou e hoje agita as bandeiras do "Make America Great Again" (Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre). Com efeito, o Partido Republicano desceu à sepultura, na mesma proporção que Trump se eleva aos céus do poder! Foi a primeira vítima do trumpismo!

Quem tem observado de perto a movimentação das massas americanas, pode perceber que a supremacia branca, aliada a um projeto claro e explícito de poder por parte de muitos religiosos, vem dando o tom da política nos últimos anos. As pautas são as bem conhecidas, em torno da “américa em primeiro lugar”, que implica atitudes xenófobas, abominando emigrantes (legais ou ilegais), taxação de produtos importados (nomeadamente da China) e uma agenda de costumes dita conservadora, que visa colocar a religião no epicentro do poder.

O racismo cada vez mais explícito e descarado, não é apenas sintoma dessa movimentação, mas a ostentação de um projeto claro, que seduz, repito, metade dos americanos. Se o policial condenado pela morte de George Floyd fosse alvo de um plebiscito nacional, poderia muito bem ser absolvido. São impactantes as cenas de um homem negro, surdo e com paralisia cerebral, agredido com socos e choques por policiais em agosto passado, no Arizona. Trump captou, como bom sismógrafo, a inquietação dessas placas tectônicas sociais e se propôs leva-las para Washington. E tem sido bem sucedido!

Contudo, concordamos que os EUA não são “um país qualquer”. Hegemônicos militar e economicamente, tornam-se em tremenda apreensão mundial, quando o assunto é eleição e principalmente democracia. A invasão ao Capitólio em 06 de janeiro de 2021 parecia mais um roteiro de Hollywood do que um fato! Porém, em 8 de janeiro de 2023, o Brasil, repetiu a triste façanha.

A queda e morte da democracia nos EUA, pré-anunciada por Trump com palavras e atitudes, geraria um efeito dominó mundial catastrófico, de consequências imprevisíveis. A expectativa em torno do pleito americano é infelizmente proporcional ao momento delicado que vivemos, com várias guerras em andamento e inúmeros outros conflitos regionais. Soma-se a isso, a ameaça constante do uso de armas nucleares. A capitulação da civilidade americana, elevará a temperatura na geopolítica mundial a níveis insuportáveis. Faço minhas as palavras do general Mark Milley: Trump é um “fascista até à medula”!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos - Arquidiocese de Londrina

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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