''Um simples e humilde trabalhador na vinha de Deus'', foi como o Papa Joseph
Ratzinger Bento XVI se proclamou, em seu primeiro discurso como Pontífice. Não tanto um simples, mas um poderoso regente da Igreja Católica mesmo antes de ser conduzido ao comando pleno, e com posições conservadoras bem claras e definidas. O universo clerical católico não saudou com grande euforia a escolha deste alemão de 78 anos, em face de suas intransigências conhecidas contra idéias mais progressistas no seio da Igreja, mas é certo que tenderá a seguir a linha de seu antecessor, até onde o peso dos anos o permitir. João Paulo II viajava pelo mundo como um atleta olímpico, desde os seus 58 anos, e não se sabe se Ratzinger terá a mesma disposição e a mesma vontade. Espera-se que haja um encurtamento das andanças papais, tão do agrado de João Paulo. Ratzinger já é, desde muitos anos, um habitante do Vaticano, como prefeito que era da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé e, portanto, profundo conhecedor dos meandros que cercam a política da Igreja. Era o braço direito do Papa recém-falecido e, com toda certeza, um influente conselheiro em algumas delicadas questões. Poucas mudanças deverão ocorrer no espírito da Igreja Romana, mas tem-se como certo que Joseph Ratzinger a quem os seus partidários chamavam de Grande Inquisidor endurecerá contra pleitos progressistas como o advento das mulheres no sacedócio, o casamento dos padres, a contracepção e a aproximação com outras igrejas. Mesmo que tenha de enfrentar a dura estatística dos 4.300 frades católicos americanos acusados de envolvência sexual com pelo menos 10.000 crianças e adolescentes, nos últimos 50 anos, Ratzinger Papa certamente não abrirá nenhum debate visando a aprovação do casamento sacerdotal, mesmo que no celibato repouse a razão mais fortemente apontada para aquela pouco lisonjeira marca, que turva a imagem do sacerdócio católico. Os progressitas adeptos da Teologia da Libertação, cujo expoente máximo foi o padre brasileiro Leonardo Boff, alimentam fortes resssentimentos contra Ratzinger, porque foi ele o maior inimigo desses progressistas, mais centralizados na América Latina. A década marcante desse embate foi a dos anos 80, quando o já influente cardeal alemão dizia, em face disso, que ''a Igreja era um barco prestes a afundar''. Por ser a América Latina a maior concentradora de católicos se bem que nem todos progressistas o agora Papa Ratzinger terá de suturar muitas feridas abertas por ele mesmo, no passado. Fabian Sanabria, diretor do Instituto Colombiano de Estudos Religiosos, bateu forte ontem, após a decisão do Conclave, declarando que ''Joseph Ratzinger vai restringir a Igreja Católica, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, devido às suas posições retrógradas e contrárias aos desejos de muitos fiéis''. No entender de outros téologos, ''a Igreja teme modernidades e sente segurança no conservadorismo''. Algo intrigante emanou do pensamento deste influente sacerdote. Ele disse no ano passado que ''quanto mais uma religião se assimila ao mundo, mais ela se torna supérflua''. Não era esta uma doutrina de João Paulo II, e não se sabe se isto gerou algum conflito com o antecessor e se essa posição influirá no pontificado de Bento XVI. Quereria o agora Papa uma Igreja menos voltada para a temporalidade e mais para a doutrina do avanço espiritual? Se, pelo seu pronunciamento, a primeira posição parece clara, a segunda nunca foi uma proclamação forte deste alemão durão, ora Pontífice. Com toda certeza ele é menos um místico e mais um linha-dura contra os progressistas que sempre combateu.

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