A falta de jazigos nos cemitérios públicos é um assunto que não ganha muito espaço no debate público até que ele se torne uma realidade muito incômoda. Muitas vezes isso ocorre porque a cidade cresce e não houve um planejamento contínuo para lidar com um serviço tão essencial.

É o cenário que revela o Projeto de Lei 312/2025, encaminhado pelo prefeito Tiago Amaral à Câmara Municipal de Londrina. A matéria propõe alterar uma lei aprovada em 2024 para permitir a ampliação de cemitérios em áreas limítrofes aos já existentes, desde que respeitadas diretrizes ambientais e o sistema viário do entorno.

Na prática, o PL abriria caminho para a expansão de dois cemitérios públicos com potencial de crescimento, São Paulo, na zona leste, e o João XXIII, na área central.

A justificativa para a alteração em uma legislação tão recente é justamente a ausência de jazigos na área urbana e uma restrição criada pela lei de 2024, que afirma em seu artigo 9º que “os cemitérios poderão ser implantados nos zoneamentos onde a atividade é permitida”. O PL 312/2025 acrescenta que isso também poderá ocorrer “em áreas limítrofes aos cemitérios existentes”.

De acordo com o presidente da Acesf (Administração de Cemitérios e Serviços Funerários), Péricles Deliberador, a demanda por vagas em cemitérios é histórica em Londrina. Hoje, há jazigos disponíveis nos distritos, com cerca de duas mil unidades, mas faltam espaços na cidade. “Com os dois cemitérios [São Paulo e João XXIII], nós conseguimos ampliar em cerca de três mil ou quatro mil jazigos verticais. Isso representa uns cinco ou seis anos de trabalho com mais tranquilidade”, afirmou em entrevista à FOLHA.

A situação é urgente, assim como é necessário um planejamento urbano e ambiental para longo prazo. O próprio poder público reconhece que a expansão exige estudos de impacto. O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina já apontou a necessidade de um Estudo de Impacto de Vizinhança para o caso do Cemitério João XXIII, enquanto a Secretaria Municipal do Ambiente de Londrina destaca que apenas estudos específicos poderão dimensionar adequadamente os efeitos ambientais das expansões.

Essas ponderações não devem ser vistas como entraves burocráticos, mas como instrumentos indispensáveis de responsabilidade pública. Cemitérios afetam o uso do solo, a drenagem, o tráfego e a dinâmica social de seu entorno. Em áreas urbanas consolidadas, qualquer ampliação exige sensibilidade técnica e diálogo com a comunidade.

Uma audiência pública marcada para 16 de março, para discutir o Projeto de Lei 312/2025 é, portanto, mais do que um rito legislativo. É uma oportunidade para que a sociedade discuta a ampliação de cemitérios. A morte é inevitável e exige da gestão pública algo igualmente indispensável: planejamento, transparência e visão de longo prazo.

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