Expandir o crédito
Todos desejam a redução dos juros, mas desta vez não se pode criticar o conservadorismo do Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central pela decisão de manter a taxa básica, em sua última reunião. Havia se formado um ambiente hostil a uma baixa nas taxas de juros, devido ao receio de aumentar a inflação. Receio fundado numa conjugação de erros cometidos pelo próprio governo quando permitiu a concentração de aumentos das tarifas dos serviços públicos no início do segundo semestre deste ano, agravados pela pressão de alguns preços agrícolas e pela sustentação dos preços externos do petróleo.
Existia ainda um clima de incerteza quanto ao comportamento do FED (Federal Reserve, banco central norte-americano), diante das informações imprecisas a respeito da velocidade do crescimento da economia e da inflação nos Estados Unidos. Embora sempre pareça absurdo que o Brasil fique tomado de uma espécie de paralisia a cada vez que se reúne o Conselho do Federal Reserve, desta vez a precaução era necessária. O nosso Copom adotou a postura correta, ao não mexer nos juros naquele momento.
Muito em breve, porém, o governo deverá retomar o caminho da redução dos juros, pois continuamos ostentando as maiores taxas do mundo. Essas taxas caíram bastante após a correção da política cambial, mas ainda estão muito altas.
Apesar de obrigadas a conviver com essas taxas recordes, nossas empresas têm mostrado uma enorme capacidade de recuperação. O crescimento do crédito ao setor privado vem superando as expectativas, o que já está se refletindo no desenvolvimento da produção industrial e nas atividades comerciais, inclusive nas exportações.
Certamente isso vai resultar, num prazo não muito longo, numa recuperação importante dos índices de emprego. Os empresários estão acreditando que a política de redução dos juros vai continuar. Entendem-se as razões para a pausa determinada pelo Banco Central mas o fato é que, a menos de três semanas após a reunião do Copom, já se pode observar um arrefecimento das tensões inflacionárias. Não houve um crescimento generalizado nos preços, como se temia.
De outro lado, há um espaço muito amplo para a expansão do crédito ao setor privado. Os níveis atuais são irrisórios, em comparação com o que se verifica na maioria dos países industrializados. No Brasil, o montante de crédito ao setor privado em relação ao PIB não ultrapassa 30% ou 32%, enquanto nas economias de nosso porte na Europa ele corresponde a 75% ou 80% do PIB. E nos Estados Unidos e no Japão é ainda superior.
Isso mostra que, a despeito do recente crescimento do crédito ao setor privado no Brasil, ele ainda está longe de oferecer as condições de liquidez que a economia necessita para sustentar o crescimento da produção.
O que se espera, portanto, nesse reinício de retomada do desenvolvimento, é que o governo mantenha o rumo da política de redução das taxas de juros e, sempre que possível, com mais velocidade. E que não deixe passar a oportunidade de proporcionar as condições para a expansão do crédito à produção.
As empresas nacionais que sobreviveram aos cinco anos de insensatez cambial e taxas de juros escorchantes estão apenas nos primórdios de um processo de recuperação que não deve ser frustrado.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP, ex-ministro e atual presidente da Comissão Permanente de Finanças e Tributação da Câmara Federal
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