Exercitar nossa solidariedade - Walmor Maccarini
Exercitar nossa solidariedade
Walmor Maccarini
Se o homem afivela todos os dias o cinto das calças, e várias vezes ao dia, não é porque exista um código que o obrigue mas porque este é um procedimento necessário e indispensável. Por que, então, não afivela o cinto de segurança do automóvel? Só o faz por que pressionado pela existência de um Código de Trânsito e pela vigilância do guarda? Ninguém atropela o próprio filho, nem o cachorro, nem pisoteia as flores do próprio jardim, e não por que exista um código mas porque há uma natural consciência do ser humano de preservar o que lhe pertence. Por que então não tem o mesmo comportamento com relação ao cidadão das ruas e com os canteiros públicos?
Melhor do que respeito ao Código deveria ser o respeito ao cidadão.
Se nos comportamos bem no trânsito só por que existe um código, devemos saber que, acima de tudo, existem cidadãos...
Se no sofá de nossa casa cabem duas pessoas, com toda certeza não vamos nos sentar bem no meio deixando alguém de pé. Por que, então, ao estacionar o carro na rua o colocamos bem no meio, no lugar onde cabem dois? Por que, nesse momento, não nos ocorre folhear nosso Código de Solidariedade?
Ninguém de nós joga no chão da própria sala um maço vazio de cigarros. Não porque haja um código ou um vigilante que nos multe, mas porque temos consciência de que não vamos fazê-lo. Então por que o lançamos na rua, e até pela janela do carro? E o pior, diante dos filhos, para que quando adultos nos imitem... Nenhum de nós cospe no carpê da própria sala, mas o faz na rua e até pela janela do automóvel. Nenhuma pessoa - a não ser aquela inapelavelmente incorrigível - age fora das normas quando entra no próprio banheiro, mas faz um estrago danado no dos outros, sobretudo em bares e restaurantes. Tanto homens como mulheres.
Nenhum fumante joga o toco do cigarro no tapete da própria sala, mas o faz tranquilamente na calçada e outros lugares públicos; nenhum lança a bituca no capim seco de sua propriedade, mas não hesita em fazê-lo à margem de rodovias, com todo o risco de provocar um incêndio e grandes prejuízos, afora a fumaceira altamente perigosa para o tráfego. Por que não abrir o Código da Consciência e ver que, infringi-lo, resultará em grandes estragos?
Por que o que nos controla é uma lei, um policial, o temor de uma multa ou da cadeia, e não a plena compreensão de que temos que nos comportar civilizadamente porque isto é um ato educado, fraterno e solidário?
Muito melhor seria o mundo se o comportamento do homem fosse movido não por imposição de leis mas pela lucidez da consciência.
Quando começarmos a respeitar os cidadãos acima de tudo - afinal nossos iguais - iremos esquecendo das leis, simplesmente porque elas terão menos uso.
Este novo Código de Trânsito é necessário. Mas triste de um povo que tenha que ser guiado por leis cada vez mais severas! Melhor que o fosse pela razão e pela sã consciência. Poderíamos, apenas pela solidariedade - que custa tão pouco - eliminar a aplicação de metade das sanções contidas nos códigos.
O mais rude dos indivíduos é bom e manso com a mãe e com as demais pessoas que ama, mas por que vira bicho quando monta no automóvel? Dá para arriscar que o homem impotente para certos desempenhos que lhe são fundamentais busca compensar-se pelo vigor da máquina. Mas não tenhamos dúvida de que é uma pessoa em pleno gozo de suas faculdades e que sabe muito bem quando avança o território alheio. Assim como o bêbado que, por reconhecer-se em tal condição, traveste-se de irresponsável e qualifica-se habilitado para as arruaças. Uma pessoa alcoolizada enfraquece a coordenação motora mas no íntimo está consciente. Experimenta botar água na cachaça dela prá ver se ela bebe... O homem é tão zeloso de suas próprias coisas e consciente e lúcido quando lhe convém!
É rígido, sim, o novo Código do Trânsito, como são rígidos e às vezes ríspidos os policiais, na maioria despreparados para a função e todos muito mal pagos pelos riscos que correm, pelo asfalto fervente e o sol ardente lhe queimando as têmporas, e irresponsável é o Governo por não zelar convenientemente pela conservação e sinalização de ruas e estradas, mas é preciso que cada um dos cidadãos se conscientize de que vivemos em comunidade e por isso precisamos ser solidários. Como única condição de sobrevivência. Não vamos andar na linha só porque temos um novo Código, só porque há um policial de olho em cada esquina, mas porque é bom para nós, é confortável, é seguro, resulta mais barato... Não precisamos ficar obcecados por respeito a leis. Basta que respeitemos os cidadãos, que afinal somos nós mesmos.
O novo Código com certeza contribuirá bastante para disciplinar nossos hábitos, mas, aproveitando o embalo, vamos todos nós - motoristas, pedestres, guardiães do trânsito - colocar em prática também nossos dons de responsabilidade e solidariedade! E iremos ver que muitas coisas boas começarão a acontecer e que somos mais responsáveis e solidários do que imaginávamos. Só nos falta começar a exercitar!
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina





