Exercício de imaginação - Arlete Salvador
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segunda-feira, 09 de novembro de 1998
Arlete Salvador 
Desde que o pacote econômico foi baixado, há pouco mais de uma semana, há um desfile de economistas, jornalistas, políticos e técnicos do governo nas emissoras de televisão e nas páginas dos jornais discutindo o sucesso ou fracasso das medidas. Há profecias para todos os gostos. Até o presidente Fernando Henrique Cardoso se referiu a elas. Chamou os palpiteiros de plantão de cassandras, numa referência à deusa da mitologia grega que tinha o dom da profecia.
O falatório é natural diante de matéria tão polêmica. O que me intriga, no entanto, é a capacidade dos palpiteiros de falarem sobre o pacote econômico como se a coisa não fosse com eles. Esses senhores debatem na tribuna do Congresso, do Planalto ou dos estúdios de televisão com altivez de quem se refere a medidas a ser cumpridas pela plebe, pelos subordinados, pelo povão, pelos outros. Por nós. Nunca por eles mesmos.
Nesta semana, ouvindo o ministro Pedro Malan debater o pacote com os deputados federais, fiquei pensando se aquele universo de homens engravatados está sujeito aos mesmos aumentos de impostos que nós, os cidadão comuns. Não me pareceu. Ficaram discutindo os grandes números nacionais, o fluxo de capitais, o percentual do déficit público, as taxas de juros, o acordo com o FMI. Nada muito diferente do que aconteceu poucos dias antes, num encontro semelhante com os senadores. Malan até bradou a uma revista inglesa para defender o seu ponto de vista. Tudo muito elegante, inteligente, asséptico. Ninguém mencionou uma preocupaçãozinha sequer com o próprio bolso. Tomando Fernando Pessoa emprestado, será que a crise só chegou à minha casa?
Num exercício de imaginação, pensei como esses senhores estariam tratando as consequências do pacote em casa. Comecemos pelo ministro Malan. O que cortará ele da compra mensal do supermercado como forma de colocar o orçamento doméstico em dia? Vai demitir a empregada e contar apenas com uma diarista duas ou três vezes por semana? Nesse caso, é capaz de dona Catarina pedir ao marido que dê uma mãozinha na hora de lavar os banheiros no sábado.
E os parlamentares? Estarão eles preocupados com o desemprego de um irmão, um tio, um filho? Será que vão ter de adiar as férias de Natal em Nova York porque a recessão está aí e, já viu, né, melhor não gastar o dinheiro agora?
E o presidente Fernando Henrique Cardoso, então? Será que vai encarar uma prestação, com esses juros, para trocar a velha geladeira da dona Ruth? Como qualquer outra dona de casa, ficaria ela em dúvida entre dar força ao marido ou lembrar que não é hora de fazerem dívidas?
É claro que são situações hipotéticas. Pura imaginação. Nossos representantes no governo e no Congresso têm coisa mais importante com que se preocupar do que tratar dessas miudezas da vida cotidiana.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


