Exercer a solidariedade - Walmor Macarini
Walmor Macarini
Neste ano 2000, que nasce envolto pela magia de ser o último da década, o último do século e o último do milênio, ademais porque somos os contemplados pela graça de vivenciá-lo e de ser a civilização eleita para assistir à chegada destes novos tempos, vamos fazer o propósito de sermos melhores do que temos sido, e assim honraremos o convite com que fomos distinguidos para este grande banquete.
Em 2000, chegamos algo trôpegos ao final de mais um milênio e isto nos faz pensar se, ao invés de tanto competir, melhor não será partilhar mais e sermos mais solidários. Temos tentado múltiplas formas, mas o resultado é que não somos felizes. Por que então não tentar um novo modelo, estribado mais no companheirismo, na solidariedade? Afinal, somos todos passageiros desta nave, e a decisão de tentar está em nós apenas, e em mais ninguém. Se não podemos melhorar o mundo a um passe de mágica, podemos começar pela busca de melhorar a nós próprios, e quem sabe o mundo não começará a melhorar também... Não será necessário nenhum esforço sobrenatural. Bastará que vigiemos um pouco mais nossa conduta ante os acontecimentos do dia-a-dia. Solidariedade não significa concordar sempre, mas a verdade é que temos sido impacientes, muitas vezes intolerantes e, sobretudo, com uma tremenda má vontade.
O ano 2000 já nasce atípico, até pelos seus números redondos, mas será com certeza um ano fantástico. Os seus trezentos e sessenta e cinco dias serão, cada um deles, um dia de festa, como se fosse o último do milênio. É provável que trabalhemos menos e façamos mais festa, o ano inteiro.
Mas, junto com trabalho ou com festa, vamos praticar mais o companheirismo, quem sabe nos acostumamos e já começamos neste ritmo o terceiro milênio... Afinal, temos que nos saudar uns aos outros pelo privilégio de estar aqui, juntos, neste derradeiro ano e na grande virada.
Nossos antepassados recentes, remotos e remotíssimos devem ter imaginado tantas vezes, com os olhos no mistério do futuro, que povo estaria habitando a Terra no final do ano 2000 apregoado como o do fim dos velhos tempos e início de tempos novos, com algumas conjecturas sinistras de fim do mundo e eis que este povo somos nós! Incrível, fantástico, extraordinário!
Mas que não se perca de vista a solidariedade. Ela pode se manifestar por um gesto, uma palavra, uma ação. Com um pouco de vontade podemos atravessar a sala e ir cumprimentar alguém com quem tenhamos tido alguma diferença. Com um pouco de paciência podemos ceder passagem no trânsito. Podemos ceder lugar a alguém mais velho, que está na fila. Com um pouco de percepção podemos ceder nossa cadeira a alguém mais cansado e que mais necessite. Com um pouco de delicadeza podemos abrir a porta do carro para a mulher e a namorada. Com um pouco de amor ao próximo já que nos detemos para falar com tanta gente podemos ouvir o que quer nos dizer o suplicante que nos aborda na rua. Se alguém nos pede algo, quem sabe podemos dar. No mais das vezes as pessoas precisam de simples palavras de apoio e incentivo. Ao final do dia, no balanço dos sim e dos não, sentiremo-nos melhores pelos sim que temos pronunciado, pelo maior número de vezes que estendemos a mão, pelas atenções e sorrisos que temos dado, pequenas coisas que custam tão barato mas que são preciosas para quem as recebe.
Ninguém é tão rude que não se comova diante de um gesto solidário. E um simples gesto pode, muitas vezes, mudar o humor da pessoa, fazê-la mais feliz naquele dia, e só isto já terá valido a pena. O ano 2000 vai se prestar muito bem para o exercício da solidariedade latente em nós e que temos deixado muitas vezes mofar, por pouco uso.
Às vezes não somos solidários por vergonha, e é verdade que muitas pessoas sentem mais dificuldade com o receber e manifestar delicadeza que com as atitudes grosseiras, delas próprias e dos outros. A grosseria afasta, a delicadeza aproxima, e às vezes não queremos proximidade. Embora o direito à privacidade de cada um, a reserva sistemática e o excessivo zelo pela individualidade sejam manifestações egoístas.
Neste ano 2000 vamos ser solidários conosco mesmos, evitando o excesso de carga no trabalho, o excesso de bebida, se possível despoluir nossos pulmões abandonando o cigarro; e drogas, nem pensar! Nosso corpo é um santuário, vamos reverenciá-lo. Um regime para perder peso não é apenas uma atitude para melhorar a estética, mas um tributo ao que temos de mais valioso nesta vida terrena, que é nosso próprio corpo, o invólucro que abriga a alma. Vamos ser solidários com ele. Agradar nosso corpo não é egoísmo, não é culto à materialidade, é auto-estima, é autovalorização, é um ato de responsabilidade. Vamos vesti-lo bem, com roupas que nos agradem. Fazer coisas que nos tragam alegria e satisfação, praticar atos saudáveis que nos proporcionem bem-estar, digerir comidas e bebidas que nos satisfaçam e nos deliciem, escolher o melhor para nós. Isto é um dever de solidariedade que temos para conosco. E temos que nos aprovar sempre, porque nós somos simplesmente o máximo!
E sobretudo amar, amar muito. De todas as formas, sem restrições e nem limites. 2.000 vezes neste ano 2000. Por que amar é também um ato solidário.





