O jornal ''O Estado de S. Paulo'' noticiou na edição do último dia 4 que a TV Cultura, de São Paulo, caso não receba um socorro financeiro do governo paulista deverá fechar suas portas dentro de, no máximo, 90 dias. A situação, em todos os sentidos, beira ao caos. Segundo o ''Estadão'', os fornecedores de arroz e feijão que abastecem o restaurante da casa não recebem há meses; a caixa d'água ameaça desabar a qualquer momento; como não há fitas para gravação dos programas, estão sendo reutilizadas as do arquivo, extinguindo a própria história da televisão e do País; o sinal da programação para algumas cidades já foi cortado e desnecessário afirmar que os equipamentos estão obsoletos.
Esta deterioração não é recente. Há anos a televisão pública brasileira caminha para o catafalco. Mesmo assim, por teimosia ou insistência de uma meia dúzia de abnegados, ela resiste. Apesar de toda a penúria, ela foi capaz de conquistar importantes prêmios internacionais na área de programação infantil.
No Paraná, as condições da TV Educativa no que tange a recursos orçamentários não diferem muito de São Paulo. Durante um período, na gestão do governador Jaime Lerner, apresentei um programa de entrevistas quando então pude sentir na carne as dificuldades em atuar numa emissora estatal. Recordo que numa das gravações, o monitor que ficava no alto e defronte ao cenário literalmente caiu, passando a milímetros de distância do câmera-man. Junto trouxe parte da iluminação. Por questões técnicas e emocionais a gravação foi interrompida.
Nota-se hoje que em relação aos equipamentos houve uma melhoria sensível nos últimos anos, mas ainda longe do ideal. A ausência de recursos continua impedindo que programas com conteúdo didático, educativo, cultural e informativo venham a ser produzidos. Por mais competentes que sejam seus dirigentes e profissionais, ninguém faz milagre a partir do nada.
Poucos irão discordar que a qualidade da programação nas emissoras de televisão no Brasil é péssima. Não é preciso ser Phd em comunicação; basta clicar o controle remoto para assistir o que há de pior. Os governantes deveriam investir maciçamente na educação televisiva a partir das emissoras públicas. O dinheiro enterrado para financiar projetos educativos de duvidável alcance social seria suficiente para dotá-las não só de melhores condições técnicas e operacionais, mas também de uma programação adequada aos seus propósitos.
O descaso começa quando tais programas, por interesses comerciais, vão ao ar em horários impróprios, às vezes antes do amanhecer, sendo que poderiam ser apresentados e reprisados em escolas durante o período de aulas. Alguns setores da vida nacional, entre eles a educação em suas diversas formas e meios, deveriam obter dos governos prioridade absoluta. Não significa com isso que a iniciativa privada deva ser excluída. Aliás, este tem sido um dos nichos de mercado que mais cresceu nas últimas décadas. No entanto, como dita o capitalismo, tanto os lucros como os riscos devem ser parte do jogo.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

mockup