Exemplos que dignificam
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de maio de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Hoje quero escrever sobre o que existe de positivo. De coisas que estão próximas e que às vezes não vemos. E por isso quero me reportar ao exemplo advindo do trabalho difícil, árduo e abnegado, executado por alguns que, deixando de lado o teoricismo dos discursos, o engodo das caridades fáceis, as lamúrias sem fim dos comodistas, se entregam à sua tarefa com alegria, entusiasmo e certeza, tornando em realidade os sonhos e os ideais de um mundo melhor.
Sim, é bom que se escreva sobre essas coisas, porque não é certo que só exista a violência, os escândalos, a corrupção, as catástrofes. Se o locatário do mundo é o mal, mescla-se nele um lado feito de honestidade, de solidariedade, de condutas corretas. Esse lado quase não se revela, uma vez que é elaborado no anonimato, mas certamente é sua existência que equilibra a vida neste planeta, demonstrando que o homem, o mais temível predador da terra, é ao mesmo tempo o homo faber que fabrica o futuro e desenvolve o presente à medida que supera suas dificuldades e fraquezas, e que se supera no convívio com seus semelhantes.
Fica evidente quando se vislumbra um pouco da história, que o desenvolvimento é a meta da humanidade. E o desenvolvimento deve ensejar aos indivíduos desde a possibilidade de uma vida material digna até bons níveis de bem-estar psíquico, estando, é claro, uma coisa relacionada à outra. Segundo Lawrence E. Harrison, no seu livro Subdesenvolvimento é um estado de espírito, o desenvolvimento, em sua forma mais simples, é a melhoria do bem-estar humano. A maioria das pessoas hoje em dia aspira a padrões de vida mais altos, viver maior número de anos e ter menos problemas de saúde; educação para si próprios e para seus filhos que lhes aumente a capacidade de ganhar mais e os deixe com maior controle das próprias vidas; uma certa estabilidade e tranquilidade de fazer as coisas que lhes dêem prazer e satisfação.
Acontece, porém, que existem sociedades que facilitam o desenvolvimento, e outras que o dificultam, e o Dr. Harrison exemplifica isso da seguinte maneira: Larry Pezzullo foi criado no Bronx, e era filho de um imigrante italiano, açougueiro de profissão. Sua mãe, também imigrante, era analfabeta. Ele estudou em escolas públicas, e serviu ao Exército dos EUA na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. De volta a Nova York, cursou a Universidade de Colúmbia. Após a formatura, lecionou numa escola de Long Island e depois ingressou no Ministério das Relações Exteriores, Galgou progressivamente diversas posições, serviu como subsecretário de Estado para assuntos legislativos de 1975 a 1977, e foi nomeado embaixador no Uruguai em 1977. Tornou-se embaixador na Nicarágua em julho de 1979.
Rosa Carballo nasceu em circunstâncias humildes semelhantes, mas na Nicarágua. É uma mulher de sessenta anos, muito inteligente, digna e autodisciplinada. Tem profunda compreensão da natureza humana e enxerga longe sob a superfície do processo político do seu país. Com estas qualidades, podia muito bem ter sido uma profissional bem-sucedida em outra sociedade. Na Nicarágua, é empregada doméstica. Completamente analfabeta.
O Brasil de modo geral não é uma sociedade que encoraja o mérito ou facilita os meios de obtê-lo. Todavia, temos também nosso lado bom e exemplos que dignificam. Aqui mesmo em Londrina isso pode ser encontrado, e quero me referir a um desses exemplos. Ele se chama Núcleo Espírita Irmã Scheilla. Coordenado pelo prof. Ivan Dutra, e contando com um grupo de voluntários devotados, o Núcleo funciona há oito anos, dedicando-se a crianças e adolescentes, e concentrando atualmente seus esforços na favela Marabá. Neste local, o Núcleo Espírita Irmã Scheilla construiu uma escola de preparação para o trabalho que conta com sala de datilografia, marcenaria, creche, outras salas de cursos profissionalizantes e demais dependências. Os objetivos são os de levar os jovens a conviver com melhores ambientes no emprego, de melhorar a renda das famílias carentes, e de evitar que jovens busquem caminhos criminosos para sobreviver. Nestes anos de esforço, quase 250 jovens foram encaminhados para o trabalho através de um sistema de incentivo ao mérito obtido nas aulas preparatórias, as quais não apenas ministram conhecimentos técnicos mas burilam a conduta a partir de noções de responsabilidade, honestidade, assiduidade, pontualidade, respeito, etc.
Seguindo rigorosamente a legislação, só são encaminhados ao trabalho jovens a partir de 14 anos. Eles são registrados em carteira profissional, recebendo todos os benefícios legais. O Núcleo Irmã Scheilla coloca ainda como condição para que o jovem se mantenha no emprego, a continuidade de seus estudos nas escolas municipais.
Portanto, num momento em que se fala tanto em desemprego no Brasil, existe bem perto de nós um exemplo de desenvolvimentistas. Através do mérito e do trabalho eles alicerçam o futuro e resgatam a esperança. E é bom que se escreva sobre essas coisas. Elas mostram um outro lado, raramente registrado na mídia.


