Depois de quatro meses de luta contra a alta do imposto sobre a exportação de grãos, os exportadores argentinos sagraram-se vitoriosos. Ocorreu pela decisão do voto de minerva (no Senado) de Júlio Cobos, o vice-presidente da República - que na Argentina ocupa a presidência dessa Casa do Congresso. Ele reverteu a votação empatada de 36 a 36. O que se destaca do episódio é a união da classe, que nas vésperas da decisão dos senadores posicionou-se nas ruas em grande multidão, movimentando inclusive cidadãos não diretamente envolvidos. Deve ser destacada também a independente posição do vice-presidente, que não teve receio de votar contra uma proposta de seu próprio governo.
A presidente Cristina Kirchner, e por trás dela o ainda influente ex-presidente Nestor Kirchner, seu marido, obviamente não gostaram da decisão de Cobos e nem do resultado da votação, mas é com medidas assim que tem se enriquecido a vida política na Argentina. Mais politizados e mais patriotas que os demais povos do continente sul-americano, os argentinos (homens e mulheres) têm muitas histórias de lutas, e esta é mais uma. Diferente do Brasil, onde os problemas são maiores que os do vizinho país mas nem as associações classistas e nem a população se mobilizam - ao menos não com a intensidade necessária. Os brasileiros resmungam e se acomodam, os argentinos vão diretos à batalha.
O resultado é que, por este e por outros fatores, o padrão de vida na Argentina é mais elevado, embora o país também tenha os seus bolsões de pobreza. Se esse povo vive em constantes manifestações, aparentando desordem, é justamente aí que reside uma marca forte da cidadania, porque não é de seu hábito acomodar-se. Os argentinos são brigões (tome-se outro exemplo no futebol), e mesmo os seus pontos de subdesenvolvimento mostram modelos de vida de grau mais elevado do que - diga-se a bem da verdade - os do nosso Brasil. Ou seja, sua pobreza é menos pobre.
O próprio vice-presidente, que formou na chapa da presidente, não ficou no conforto dos vices, que pouco participam. Ao decidir pelo sepultamento do aumento do imposto, Júlio Cobos favoreceu a economia e serenou mais um movimento de convulsão no país, que vinha agitando não só os exportadores mas também os agricultores e pecuaristas.
O racha no âmbito do governo, pela decisão contrária do vice, não prejudicou a governabilidade, mas pelo contrário, a fortaleceu. O risco da democracia é quando os parlamentos se vendem ao poder central, mediante propinas e outros favorecimentos, e assim colocam em risco a estabilidade das instituições.
------------------------------------------------------------------------------

mockup