Exemplo da sabedoria chinesa - Hélio Doyle
Exemplo da
sabedoria
chinesa
Hélio Doyle
Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) informou, recentemente, que cerca de 100 milhões de pessoas vivem em situação de extrema pobreza nos países da Europa Oriental que estavam sob influência direta da antiga União Soviética. Segundo o trabalho de levantamento organizado e divulgado pelo organismo da ONU (Organização das Nações Unidas), isso é consequência da mal planejada e apressada transição do socialismo ao capitalismo.
Ou seja: os gênios da economia ocidental empresários, investidores e os inevitáveis consultores ansiosos por abrir rapidamente novos mercados na Rússia e no Leste Europeu, incentivaram a adoção de medidas que acabaram levando esses países ao caos econômico e social.
A situação nesses países se deteriorou tanto que, ainda de acordo com o relatório do Pnud, desde 1990 ou seja, quando acabou o sistema comunista que vigorou durante 70 anos naqueles países 10 milhões de pessoas morreram por alcoolismo, dependência de drogas ou suicídios.
Os problemas verificados são de todo tipo, segundo o relatório. O desemprego aumentou, e com ele as taxas de criminalidade e o envolvimento da população com atividades ilegais e dos funcionários públicos de todos os níveis com a corrupção. Há mais prostituição. Os serviços de saúde e educação pioraram, prejudicando a população mais pobre. Na Polônia, 60% das crianças sofre de desnutrição. Em vários países, há mais abortos que nascimentos. Há países em que a situação é melhor: República Tcheca, Hungria e os três países do Báltico (Estônia, Letônia e Lituânia).
Diz o relatório do Pnud que a economia informal representa 25% do Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia e 40% de países como a Iugoslávia, a Armênia e a Macedônia.
O que o relatório do programa da ONU mostra é, mais uma vez, a irresponsabilidade social daqueles que mandam na economia mundial. Nos últimos meses, são muitos os estudos de organismos internacionais (FMI, Bird, Unctad) reconhecendo, em linhas gerais, que quase tudo o que têm sido feito só é bom para os países ricos e para os ricos dos países pobres. A situação da maioria da população está a cada dia pior: pequenos e médios empresários entram em falência, a classe média se empobrece, os pobres ficam miseráveis e os miseráveis morrem mais cedo.
Os empresários ocidentais, ansiosos em fazer negócios depressa e depressa ganhar dinheiro no antigo e milenar império soviético, os organismos financeiros internacionais que ditam regras, os países que mandam na economia mundial, não se preocuparam em avaliar as consequências tenebrosas de uma transição muito rápida de um sistema de economia planificada, centralizada e fechada para uma economia de mercado em tempos de neoliberalismo: privatizações realizadas a toque de caixa, desemprego se desenvolvendo em alta escala e arrombamento das fronteiras comerciais.
Agora, quem paga a conta da ganância e da irresponsabilidade é a população da Rússia e dos países localizados no antigo campo socialista. E assim podemos entender melhor a sabedoria dos chineses, que se recusaram a seguir os passos suicidas dos dirigentes russos Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin e os cantos das sereias ocidentais. A China, às vésperas de completar 50 anos de socialismo, mostra que há outro caminho para superar os problemas do sistema. Os traumas das mudanças que o país enfrenta são inevitáveis, mas podem ser menores.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília





