EXEMPLO COLOMBIANO - Arquitetura contra o crime
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de abril de 2013
Rubens Chueire Jr.<br> Reportagem Local 
Investir na urbanização de áreas degradadas pode ajudar a salvar vidas. A ideia defendida pelo arquiteto e urbanista colombiano Gustavo Restrepo vem tendo resultado em sua cidade natal, Medellín, desde 2002. Por meio de seu projeto, que previa uma total revitalização das áreas periféricas e implantação de equipamentos, como escolas e espaços de lazer, ele ajudou a população a superar a desigualdade e a falta de perspectiva, impactando significativamente nos índices de criminalidade. Depois de décadas de violência, provocada principalmente pelo narcotráfico, o índice de homicídios na cidade caiu de 383 casos por 100 mil habitantes em 1993 para 60 no ano passado.
Restrepo esteve em Curitiba em março participando de um simpósio promovido pela UniCuritiba e Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura. Nesta entrevista, o arquiteto explica o que foi feito em seu país e aponta que a iniciativa pode ser aplicada em qualquer cidade da América Latina. "Os moradores humildes sempre apoiam novas iniciativas, mas eles precisam ser ouvidos. O que não é certo é os políticos tomarem decisões próprias, sem consultas", ressalta.
Como foi desenvolver o trabalho de readequação da cidade de Medellín?
Para falar disso temos que recordar a história desde o princípio, por volta dos anos 70, 80 até 90, quando o narcotráfico foi muito forte na região. Nesta época os bairros da periferia sempre estiveram fora da linha de ação do governo. Foi muito difícil fazer este trabalho porque se tomou muito tempo. Precisamos entrar nestes locais pouco a pouco, para ganhar a confiança das comunidades, assim como acontece nas favelas aqui no Brasil. A princípio tudo parecia muito complexo, mas logo as pessoas se deram conta de que o que chegava até eles era para melhorar a região. E eles perceberam que a arquitetura, a relação de comunicação com o restante da cidade e a situação social dos moradores melhoraram muito.
E houve uma participação efetiva da comunidade no projeto?
Um grupo enorme de pessoas trabalhou junto para que tudo desse certo. Mas sem dúvida o governo também teve que estar atento à questão e acompanhou todo o processo. Hoje é muito mais fácil do que 15, 20 anos atrás para se implantar alguma ação nova. Os moradores não tinham perspectiva alguma. E esta postura foi mudando aos poucos, porque foi algo debatido, e que eles perceberam que era para o bem deles. É um trabalho que me enche de gratidão. Quando fazemos algo que propaga o bem isso se multiplica. E estas populações percebem como estão sendo tratadas e assim fica mais fácil abrir um canal de comunicação.
Qual foi o ponto inicial do seu projeto?
Primeiro levantamos quais eram os locais mais humildes, com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A partir desta informação observamos que a violência familiar, contra mulheres e crianças, órfãos da guerrilha do tráfico, por exemplo, acontecia nas regiões mais periféricas. Por isso todo o plano foi estruturado na educação conjuntamente com a revitalização. Construímos 19 creches, 150 colégios normais e 15 grandes escolas, sempre após consultas públicas. Ouvindo a população percebemos que eles estavam preocupados com o futuro das crianças.
E qual foi o papel do urbanismo neste processo?
Temos um terreno muito acidentado em Medellín, o que atrapalha qualquer projeto de urbanismo. Além disso, os anos de violência fizeram com que faltasse espaços públicos de recreação, por exemplo. Entretanto, com o projeto, conseguimos desenvolver uma série de ações, com a construção de grandes parques nas partes mais altas da cidade para frear o crescimento desordenado e hoje temos estruturas que são aproveitadas por toda a população. São locais de encontro de crianças, jovens e até de idosos. Revitalizamos ruas, postos de saúde. O importante é mostrar que todos os moradores são reconhecidos pelo poder público, por meio de ações que promovam a inclusão social.
E essas medidas geraram impacto na redução da violência?
A redução foi muito forte. Existe um quadro de análise que aponta os índices de homicídio desde 1985. Em 1993 ocorriam 383 homicídios por 100 mil habitantes. Após todas as ideias aplicadas e as alterações urbanas, os índices caíram em 2007 para 26 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em 2011 o índice apontou 60 homicídios por 100 mil. O narcotráfico e os constantes ataques das guerrilhas, principalmente promovidos por Pablo Escobar, eram os maiores problemas. Verificamos que isso reduziu, mas observamos que agora é o microtráfico que está resistindo. São os pequenos vendedores de drogas que ainda persistem, mesmo com ações policiais e de ação social.
O modelo desenvolvido na Colômbia pode servir também para o Brasil?
Toda a América Latina é parecida, muito similar. Desde o México até a Patagônia. A composição familiar, os costumes e a arquitetura são similares. É sim possível aplicar a mesma ideia nas favelas do Rio de Janeiro. Em Palhoça, município da Grande Florianópolis, fizemos um trabalho parecido, numa favela chamada Frei Damião, e os primeiros resultados estão aparecendo. Nestes locais as pessoas são boas. Erradamente se tem uma ideia de que o problema são os moradores da periferia, mas pelo contrário, eles são os primeiros a esperar mudanças, a apoiar novas ideias porque eles vão sair ganhando. E isto não muda de um país para outro. Creio que a experiência de Medellín é extremamente possível de ser repetida, claro que com todas as considerações que cada local tem. Os moradores humildes sempre apoiam novas iniciativas, mas eles precisam ser ouvidos. O que não é certo é os políticos tomares decisões próprias, sem consultas.
Um ambiente em que uma comunidade tem acesso a diversos serviços seria a saída para a redução dos crimes?
Quando há desigualdade de condições entre as pessoas é problema. É importante ter desde um espaço digno para brincar até atendimento de saúde e facilidade para usar o transporte público. Tudo isso tem que funcionar conjuntamente, aliado a uma educação de qualidade. Um menino rico e um menino pobre, por exemplo. O primeiro se alimenta bem, estuda num colégio com bons professores e o segundo não. O primeiro se desenvolve, o segundo não. A falta de alimentação adequada inclusive vai afetar no seu desempenho escolar. Se uma pessoa não tem a mesma oportunidade, um sempre vai estar num nível mais baixo e, consequentemente vai se sentir menos favorecida. A educação é fundamental.
A segregação não pode acontecer. E o sistema de transporte também é muito importante. Metrô de superfície e BRT (ônibus rápidos em linhas exclusivas), teleféricos, estes sistemas fazem com que eles cheguem a qualquer lugar. Medellín é uma cidade onde as políticas públicas deram certo e que dignificaram os espaços para todas as pessoas.
Existe continuidade de investimento nestas estruturas ou as mudança de governos atrapalham?
A participação da população em consultas públicas é essencial. Verificamos que mais de 60% dos moradores de Medellín participam de projetos que já foram implantados e, por isso, existe um acompanhamento dos investimentos. Até 2015 estão previstos até US$ 8 bilhões e nos próximos 12 anos, um total de US$ 12 bilhões a US$ 14 bilhões. Não importa o partido político que vai assumir a administração, é preciso que o plano da cidade continue sendo posto em prática.
Temos no Paraná as instalações das Unidades Paraná Seguro (UPS), um projeto de prevê a implantação de ações sociais em áreas com alto índice de criminalidade. Este pode ser considerado um primeiro passo para se reduzir a violência nas cidades?
É o mesmo estilo. Verifiquei alguns modelos do programa no Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), umas maquetes destas instalações, e é sim muito importante. Vale a pena destacar também a necessidade de realização de concursos públicos para que novos profissionais apareçam, com ideias diferentes e uma arquitetura de qualidade para se espalhar por toda a cidade, incluindo os locais mais afastados.


