Em 1992, dom Albano Cavallin chegou a Londrina para assumir o cargo de arcebispo. Em seu currículo, trazia vasta experiência na formação de novos padres, uma vez que foi reitor de três seminários em Curitiba, ainda como sacerdote. Chegava de Guarapuava, onde iniciou sua carreira como bispo e surpreendeu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por sua postura engajada nas lutas sociais e pelas críticas aos políticos. ''Cometi a loucura de celebrar missa no meio do pátio da cadeia, sem nenhuma separação com os presos. Na época houve muitas críticas'', relembra dom Albano, fundador da Pastoral Carcerária no Brasil.
Ele esteve por 14 anos à frente da Igreja de Londrina. No período como arcebispo se envolveu em várias polêmicas, como quando quebrou uma garrafa de pinga nas escadarias do presbitério da Catedral, informando aos padres a proibição da venda bebida alcóolica nas festas de igreja. Em 2006, pediu renúncia do cargo e recebeu o título de bispo emérito.
Amanhã, dia 25, Albano Cavallin, que é natural de Lapa, completa 80 anos. Nesta entrevista, ele faz uma análise sobre temas relevantes, como as lições que a vida ensina a quem já tem bastante experiência, a crise enfrentada pelas famílias e os maiores problemas enfrentados pelo País hoje. ''O Brasil é um país que cresce materialmente, mas tem dois pés de barro, a corrupção generalizada e o abandono dos princípios religiosos'', aponta.
Como o senhor define a vida aos 80 anos?
Uns fazem da vida uma comédia. Outros uma tragédia. Há quem desperdice a vida, só buscando dinheiro, prazer e poder. Há quem passe a vida amargurado, porque não se julga honrado como merece. Eu escolhi fazer da vida uma realização, não importa o tempo ou o momento. A maioria das pessoas que chegam a essa idade vivem amarguradas, depressivas, apegadas ao passado. Eu olho para a frente. Cada um dos dias que me forem dados serão usados para ser e fazer as pessoas felizes.
Quais as lições que o senhor aprendeu nesse período?
Eu descobri que Deus nos acompanha diariamente, em toda a nossa existência. Que alegria saber que cada criatura, eu, o seu João, a dona Maria e o papa Bento XVI, todos recebemos igual atenção e carinho de Deus. Descobri também que a vida é feita de altos e baixos. Não podemos nos desesperar com os fracassos de hoje, sempre há um novo dia para acertarmos.
Por que o senhor preferiu ficar em Londrina após a aposentadoria?
Eu poderia viver mais perto de minha família, em Curitiba, mas aqui eu me sinto muito amado. Também pela saúde, pois o clima é favorável. Londrina é uma das principais arquidioceses do Brasil. É uma igreja misericordiosa, com muitas obras sociais. Colabora muito nas campanhas pelos que sofrem. Não há como não se apaixonar.
Como o senhor vê a família hoje?
Ela está se arrebentando. Eu luto como posso pela santificação da família. João Paulo II tem uma frase forte, que eu gosto de usar: ''Não há sucesso no trabalho que compense o fracasso no lar.''
As filosofias modernas enfraquecem a Igreja?
Não tenho preocupação quanto a isso. A Igreja já sepultou na sua história muitas ideologias e a verdade tem uma força interior que vence todos os ''ismos'', como relativismo, economicismo, hedonismo etc.
Como o senhor vê o Brasil hoje?
O Brasil é um país que cresce materialmente, mas tem dois pés de barro, a corrupção generalizada e o abandono dos princípios religiosos. É um país que descobre o pré-sal e afunda na lama os valores da família. O pecado do ''jeitinho'' é uma vergonha nacional. Temos que romper com essa maneira de querer tirar proveito de tudo. O Brasil precisa entender que tem tudo, só precisa administrar e repartir.
Qual seria o perfil ideal para o próximo presidente?
Tudo colabora para o Brasil ser uma potência emergente. O novo presidente deve ter larga experiência, passado por várias instâncias de administração pública, de vereador a governador. Deve ter currículo cristão para defender os valores que beneficiem a todos. Não deve ser uma pessoal radical, que coloque os interesses de seu partido acima dos interesses da nação.


Eu escolhi fazer da vida uma realização


Luto como posso pela santificação da família

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