Depois de terem pedido seus ocos paradigmas: as sociedades superfechadas do universo socialista, que surpreenderam o mundo ao ruir mais completamente do que o muro de Berlim; as esquerdas mundiais vêm-se tentando reorganizar e reformular, principalmente, o seu discurso. Coisa certamente mais fácil de fazer do que recriar modelos inexistentes - e na qual eles são craques, pois influenciaram irremediavelmente as últimas três gerações de intelectuais no mundo quase todo e, em especial, no Brasil.
Assim é que conseguiram, com o apoio inquestionado da imprensa internacional, criar o termo neoliberalismo - que soa como nome feio. Quem é que gosta de ser taxado de neoliberal? Eu, certamente não, nem você, amigo leitor e - tenho certeza - ainda menos o presidente Fernando Henrique, respeitável acadêmico e intelectual de formação e ideologia marxista e socializante.
Afinal de contas, o que são: o neoliberalismo e, consequentemente, um neoliberal? De acordo com Steve Hanke, professor da Johns Hopkins University, em artigo na revista americana Forbes (uma publicação obviamente ‘‘neoliberal’’) além de compartilhar idéias sensatas, embora um pouco antiquadas, de pensadores ‘‘liberais’’ do passado, como Locke, Bentham ou Stuart Mill, o termo serve para designar, de forma abrangente e quase avassaladora, todas as pessoas de certo destaque na sociedade que acreditem nos benefícios do regime capitalista, funcionando numa sociedade aberta e com a mínima intervenção do Estado. O ‘‘Estado mínimo’’ a que se referiu o nosso Lula, numa passagem da sua entrevista a ‘‘Isto ɒ’, criticando FHC.
Não se pode dizer que seja pouco razoável afirmar, hoje em dia, que o capitalismo - ou economia de mercado - é um sistema de organização econômica que deu certo. Como a própria democracia, não se trata de um sistema perfeito, mas é o menos imperfeito de todos os que foram tentados. Pode ser aperfeiçoado? Pode - e certamente deve. Também, considerar que as sociedades abertas estejam colhendo mais benefícios no convívio dentro de uma certa ordem econômica mundial do que as sociedades fechadas, não é incorreto - pelo menos estatisticamente. Hanke cita números, mostrando que nas sociedades mais abertas, as classes médias recebem cerca de 60% mais do PIB do que nas sociedades fechadas, onde a distribuição de renda é mais injusta. E grandes países ‘‘fechados’’, como a Índia, a China ou o Brasil, estão em situação bem pior do que o Canadá ou a Austrália, para não citar o exemplo óbvio dos Estados Unidos (outros exemplos de sociedades abertas, citados por Hanke são a Nova Zelândia, a Suíça e a Alemanha e, entre as fechadas, o Iraque, a Líbia, a Etiópia e o Laos).
Finalmente, sobre a intervenção do Estado, já ficou mais do que claro que o Estado é, no mundo todo - até nos países mais desenvolvidos e democráticos - um mau administrador de empresas. Isso, em geral, por duas razões: os desvios de fundos por corrupção (mais comuns do que se supõe por aqui até na Holanda, Japão ou Alemanha) e as motivações políticas ou mesmo sociais que se refletem no empreguismo irrefreado e na baixa produtividade do setor público. Portanto, não faz sentido matemático desviar somas imensas do setor privado para o setor público.
Se todas as atividades produtivas do país fossem privatizadas - até mesmo nos setores-tabu de saúde e educação - e o governo meramente destinasse verbas para subsidiar os mais necessitados a obter esses serviços nas organizações privadas, tenho certeza de que a economia para os contribuintes seria enorme.
Portanto - com toda sinceridade - não me parece impertinente, para um homem ou uma mulher inteligente, pensar essas coisas. Mais até: parece-me que dificilmente um homem ou uma mulher inteligente poderão pensar qualquer coisa diferente. O que me levaria a concluir que, se você conhece algum - ou vários - que esteja com discurso diverso deste, há boas probabilidades de que, bem lá no fundo, eles pensam diferente do que falam. E só falam o que falam porque lhes é conveniente ou necessário, à sua sobrevivência social ou política, ou proveitoso mesmo, no sentido de monetáriamente lucrativo - e provavelmente ilegal.

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