Os pouco mais de 53 mil habitantes de Rolândia (25 km a oeste de Londrina) acompanham assustados a mudança no cenário de segurança da cidade. Em apenas um ano, as estatísticas de ocorrências policiais cresceram absurdamente, invertendo a imagem de um tranquilo e pacato município do interior.

No levantamento anual da Polícia Militar, o dado que mais impressiona é o crescimento no número de homicídios, que saltou de apenas um em 2006 para 38 em 2007, proporção de 71,1 mortes para cada grupo de cem mil habitantes. A taxa é quase dez vezes maior que a registrada em São Paulo (8,1), quatro vezes maior que em Londrina (18,8) e superior inclusive à de Bagdá, no Iraque (53,5). O índice para uma cidade considerada ''segura'' pela Organização das Nações Unidas (ONU) deve ser inferior a dez homicídios para cada cem mil habitantes.

Esse índices comprovam que morar no interior não é mais tão seguro quanto muitos imaginam. Enquanto em São Paulo e em Londrina houve redução no número de homicídios entre 2007 e 2006 (22,51% e 29,32%, respectivamente), em Rolândia o aumento foi de 3.800%.

Para o tentente do 18º Batalhão de Polícia Militar, Silvio Moraes, o aumento espantoso no índice de assassinatos está diretamente ligado ao tráfico de drogas. Ele coloca Rolândia como rota dos entorpecentes que vêm da fronteira com o Paraguai. Isso pode ser demonstrado pelo número de prisões por tráfico de entorpecentes, que saltou de um para 91.

Em entrevista à FOLHA, Moraes afirma que o aumento no número de policiais em Londrina pode ter deslocado traficantes para as cidades vizinhas. ''Isso causa uma sensação de segurança maior, e os marginais se sentem mais acuados. Aí eles vão procurar outras regiões para o tráfico''.

Como o senhor avalia o crescimento dos índices de violência em Rolândia?
Estou aqui há cinco anos e, de lá para cá, realmente houve um aumento. Não só no número de ocorrências, principalmente no número de homicídios. Pela estatística que temos, esses homicídios estão ligados ao tráfico de entorpecentes. E o tráfico é uma bola de neve, porque dele advém o furto, o roubo, o estelionato, vários outros crimes não menos importantes, mas de menos impacto social. Os pontos de tráfico aumentaram, mas na medida do possível estamos combatendo com ações diárias, inclusive com apoio do Choque de Londrina e de outros batalhões da região.

O tráfico de drogas cresceu dentro de Rolândia mesmo ou está sendo formado por pessoas de fora?
Temos as duas situações. Já identificamos muitos pontos de moradores da cidade e também de pessoas que vêm de fora, principalmente de São Paulo. Como é uma rota em direção à costa oeste do Paraná (Foz do Iguaçu, Guaíra, região de fronteira), acaba sendo também uma rota para o tráfico de entorpecentes. O que prova isso é o grande número de apreensões que a Polícia Rodoviária tem feito aqui na nossa área, principalmente de maconha.

Podemos dizer que Rolândia virou um centro de distribuição de drogas para o norte do Estado?
Acho que não chega a esse ponto. Apesar da cidade ter em torno de 60 mil habitantes, o tráfico ainda está controlado. A gente não vê tanta apreensão como em algumas regiões de Londrina, que ocorre quase diariamente. Fazemos apreensões, mas não em grandes quantidades, exceto aquelas que a Polícia Rodoviária faz nas estradas da região. Mas a gente comprovou uma situação interessante: como Londrina apertou o cerco e Cambé também, eles descem para Rolândia, uma região mais pacata que não chama tanta atenção.

Essa situação foi registrada depois que o governo aumentou o efetivo policial em Londrina ou não tem nenhuma relação?
Não é o principal motivo, mas é um deles. O governo do Estado intensificou o número de políciais em Londrina e claro que isso causa uma sensação de segurança maior e os marginais se sentem mais acuados. Aí eles vão procurar outras regiões para o tráfico.

O crescimento da cidade gera bolsões de pobreza. É ali que está o tráfico?
Antigamente tínhamos favelas próximo ao autódromo e na Vila Nova, saída para Arapongas, e havia pontos de drogas nesses locais. A prefeitura criou os Jardins Itália e San Fernando, e as pessoas de baixa renda foram deslocadas para lá. Com a transferência desse pessoal, com certeza traficantes também foram jogados para lá. Mas também há pontos de tráfico no centro e em outros bairros da cidade. Não é um problema exclusivo dos bairros que eu citei.

Como a polícia está combatendo estes pontos?
Hoje existe uma legislação especial para o usuário de drogas, então não adianta prender ele. Levamos para a delegacia e logo em seguida o juiz dá uma ação educativa ou internamento para o usuário, porque não há mais pena para isso. Trabalhamos com o serviço de inteligência para tentar prender o traficante. É claro que, se não houver o traficante, não há o mula, como a gente chama o adolescente aliciado para entregar droga. Por isso tem sido feito trabalho ostensivo, com vários traficantes presos aqui na delegacia. O problema é que, quando a polícia prende um, outro assume a boca. A polícia desmonta o tráfico em uma determinada região, um mês depois vem um traficante de Cambé, Arapongas, e toma o ponto ali, pega tudo para ele e continua a atividade.

Falta efetivo policial na cidade?
Como é uma questão institucional, quem está autorizado a falar sobre isso é só o governo do Estado.

E a polícia está bem aparelhada?
Quanto a viaturas, armamento, equipamento, temos um amparo muito grande, e isso ajuda no combate ao crime, tanto na prevenção quanto na repressão.

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