Palavra desconhecida para muitos, a mistanásia, ou eutanásia social, é um fenômeno que vem crescendo mundo afora. Entre as inúmeras vítimas, pessoas que, por exclusão social ou econômica, veem-se sem acesso ao essencial para a sobrevivência: não têm comida na mesa, nem acesso à saúde. Os exemplos se multiplicam.

Para a mestranda em Direito Negocial e pesquisadora da UEL Walkiria Benedeti Cardozo Araújo, a partir do momento em que, segundo estimativas do IBGE, 32 milhões de brasileiros convivem com o fantasma da fome, é hora de deixar o assistencialismo em segundo plano e se ater à dignidade humana.

''O Estado deveria direcionar todos os esforços no combate às mazelas. A ação inclui famintos e outros miseráveis em condições que atentam contra a vida.''

Quem são as principais vítimas da mistanásia no Brasil?
A maioria das vítimas da falta de dignidade humana em seu nascimento, vida e morte são pessoas pobres, que sofrem com a exclusão social e econômica, e levam uma vida precária, desprovida dos cuidados de saúde e que morrem prematuramente. Essas vítimas são divididas em três categorias. Há os doentes e deficientes, que por motivos políticos, sociais e econômicos não chegam a ser pacientes; os doentes que conseguem ser pacientes, para em seguida se tornarem vítimas de erro médico; e os cidadãos, que acabam sendo vítimas de má-prática por motivos econômicos, científicos, sociais e políticos.

Mas estamos em plena vigência das políticas assistencialistas, aliás, um selo distintivo do governo Lula, não?
O Brasil ainda está sendo maquiado, apesar de alguns projetos sociais do Governo Federal que amenizam a situação. Creio que nem eu ou quem esteja lendo esta matéria estaremos vivos para vivenciarmos alguma mudança. A mistanásia, aliás, é uma categoria que nos permite levar a sério o fenômeno da maldade humana e pode ser comprovada diariamente em vários meios sociais. O Estado, enquanto provedor da dignidade humana, deveria direcionar todos os esforços no combate às mazelas. A ação inclui famintos e outros miseráveis em condições que atentam contra a vida digna.

Segundo estimativas do IBGE, 32 milhões de brasileiros se defrontam diariamente com a fome. Em tempos de Bolsa Família, como explicar o problema alimentar?
Meu foco de estudos e pesquisas é a mistanásia correlata ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que no Brasil apresenta uma divisão muito grande em suas regiões. Segundo o IBGE, estamos com uma população na faixa de 193 a 200 milhões de habitantes. São 32 milhões de brasileiros, isto é, 9 milhões de famílias, defrontando-se diariamente com o problema da fome. A renda mensal lhes garante, na melhor hipótese, apenas a aquisição de uma cesta básica de alimentos. Há 15,5 milhões de brasileiros nos centros urbanos e 16,5 milhões na área rural famintos. O problema alimentar reside no descompasso entre o poder aquisitivo de um amplo segmento da população e o custo de aquisição de uma quantidade de alimentos compatível com a necessidade de alimentação do trabalhador e de sua família. A partir de então, caímos na mistanásia da saúde, com a pessoa tendo problemas de doença, morte prematura. A fome gera também o aumento da população. É incrível e paradoxal, mas ocorre.

A senhora é favorável a um controle de natalidade? Há quem diga que a natalidade nas alturas, nessas regiões com baixo IDH, serve para lançar mão dos benefícios do governo....
Mesmo esse benefício sendo recebido, ele não supre a necessidade do ser humano. Quanto ao controle de natalidade, sou totalmente favorável, aliás, já passou da época. Minha sugestão não é um controle como é feito na China, por exemplo, que cerceia a população, e sim a prevenção. A outra opção é conscientizar as famílias que, com a renda x que têm, poderão ter o número y de filhos. Se os rendimentos não são compatíveis à educação, alimentação e a um plano de saúde, a sugestão é não ter filhos. A fome gera o aumento populacional e a violência. Os dois andam de mãos dadas e são siameses.

E em Londrina, como anda a questão da mistanásia?
Londrina passa pela mistanásia na área da saúde. O ser humano está estressado, no limite, e parte para a agressividade. O londrinense está cansado de implorar, de pedir socorro. A situação da saúde em Londrina aponta para hospitais, UTIs e Centros lotados. A maioria dos pacientes atendidos não consegue dar seguimento aos tratamentos. Londrina é um exemplo de mistanásia na saúde. Em seu desenvolvimento, também deixa muito a desejar. Não é preciso ir longe para ver a mistanásia na cidade.

Qual sua sugestão para que tenhamos, em vez de vidas abreviadas pela pobreza, a longevidade e o acesso à saúde?
Uma administração pública séria, sem dúvidas. Entendo como administração pública séria aquela que mescla a Lei Orgânica do Município com a Constituição Federal em seu artigo 5º, que traz que todos somos iguais. A necessidade deve ser a prioridade. Há pior mistanásia que maçãs podres na merenda em Londrina? Ou as creches não terem alimento e não iniciarem suas atividades?

Mas não vamos novamente incorrer no assistencialismo?
Não podemos confundir assistencialismo com dignidade humana. O assistencialismo gera uma nova etnia de londrinenses, já presente no Brasil, a do ''café da manhã, almoço e janta''. Precisamos de saúde, novas empresas, trabalho e, principalmente, educação, a última, o único meio de se mudar a realidade atual.

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