O nome é fictício mas a história de Matias, 40 anos, é verdadeira. Gerente de uma empresa que enfrentava dificuldades financeiras, Matias decidiu pagar os funcionários em vez dos impostos. Foi responsabilizado e condenado a 2 anos e 4 meses de pena alternativa e reestrição domiciliar (não podia sair de casa nas noites de sábado e domingo). Além disso teve que pagar uma multa. ''Quando eu recebi a condenação, parecia que eu tinha perdido o chão debaixo dos meus pés. Fiquei muito revoltado, achei aquilo injusto mas o tempo e o trabalho me fizeram mudar de idéia'', conta.
Matias foi trabalhar na biblioteca da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Lá, o empresário que sempre havia sido desorganizado, descobriu um dom. ''Eu vi que podia ser útil e comecei a aprender a organizar as coisas. Hoje você não acha nada fora do lugar na minha empresa. Não fui só eu que entrei na biblioteca, a biblioteca entrou em mim'', brinca Matias. ''No começo eu contava os dias para acabar a pena. Aos poucos fui me envolvendo com o trabalho, fazendo amigos e logo o castigo virou uma terapia'', diz ele, apontando uma outra lição aprendida na biblioteca: ''Antigamente eu não sabia receber ordens. Aprendi isso lá.''
Matias garante que não foi fácil. Enfrentou preconceito da família, preferiu esconder a verdade dos filhos, ainda pequenos, e só teve apoio da esposa. Sem emprego a empresa onde trabalhava fechou e ''abandonado'' pelo antigo patrão, ele demorou meses para se recuperar. ''Não tive dinheiro nem para contratar um advogado. Tive que tirar meus filhos da escola particular e aguentar piadinhas durante muito tempo'', recorda.
Aos poucos as coisas foram melhorando. Ele abriu uma empresa e fez novos amigos os colegas de trabalho da biblioteca. ''Ninguém nunca me perguntou porque eu estava lá. Simplesmente me receberam com carinho e tiveram paciência comigo.''
Quando a pena terminou, Matias tomou uma decisão surpreendente: resolveu continuar trabalhando na biblioteca, como voluntário. Ele está lá até hoje. Sobre a condenação, Matias tem suas próprias conclusões. ''A pena alternativa é uma chance e eu aproveitei essa chance'', resume.
De volta ao ''lado de cá'' da sociedade, como ele mesmo diz, Matias elogia a pena alternativa, mas faz um alerta. ''Não é a pena alternativa que vai melhorar a situação de violência nesse País. O que falta é emprego. Muitos dos condenados com quem eu conversei eram pessoas que não tiveram oportunidade de trabalhar. Se a pessoa receber pena alternativa mas não tiver emprego vai cair no crime outra vez. Se a gente não resolver o problema do desemprego vamos ter que aplicar muita pena alternativa no Brasil.'' P.F.

mockup