Evangelização e preservação da Amazônia
Aparentemente de forma desfocada, a Igreja Católica elegeu a Amazônia para sua Campanha da Fraternidade deste ano, e lançou o movimento ontem, em Belém do Pará - o Estado com maior índice de desmatamento. Diz-se desfocada porque se ocupará fundamentalmente da intensificação da evangelização naquela área - naturalmente uma de suas missões - mas tratando-se da grande floresta e do gigantesco poder da Igreja - que reúne mais de 120 milhões de católicos no Brasil - o foco deveria se voltar para uma vigorosa cruzada de cobrança ao Governo.
A campanha visa, sim, também conscientizar as pessoas para o uso sustentável da mata e do território, mas é a partir da contenção da devastação que se obterá resultados, e esta é tarefa governamental. A Igreja Católica tem grande capacidade de articulação e mobilização, por isso não deve perder esta oportunidade de sensibilizar, primeiro, o presidente da República - até porque este tem formação católica, e seu partido, o PT, tem estreita ligação ideológica com o braço temporal dessa instituição religiosa, dominante no País. O que a Igreja pode pedir ao Governo é que implante uma rigorosa fiscalização da mata, o que é possível pela ação das Forças Armadas, que dispõem de um efetivo móvel e instalado de mais de 300 mil homens.
Se as queimadas na Amazônia não são as únicas culpadas pela liberação de gás carbônico para a atmosfera - que intensifica o efeito-estufa, aquece o planeta e ainda destrói a camada de ozônio - são um dos fatores. Porém o mais grave é a destruição progressiva da biodiversidade. É possível extrair as riquezas da floresta de forma sustentável, mas não com o total descontrole (ou permissividade consentida) de hoje. Se o Brasil é um dos baixos poluidores ambientais - porque Estados Unidos, União Soviética e Europa Ocidental, pela ordem, são os três maiores - o que há a preservar é a riqueza animal, vegetal e mineral do território amazônico.
Há uma luxuriante proliferação de vida na selva, por isso existem razões sólidas para manter sua integridade física. Calcula-se que apenas 30% das espécies animais e vegetais da Amazônia sejam conhecidas, portanto destrói-se sem saber-se das riquezas ali contidas. O Brasil investe pouco em pesquisa sobre os recursos ali existentes, mas estima-se que a cura de muitas doenças (atuais e futuras) esteja nas plantas dessa gigante extensão de matas. Seus diversos ecossistemas não encontram similares no mundo e ainda não se sabe com precisão o volume total de reservas minerais que o solo amazônico abriga. E tanto estas quanto as vegetais e animais não têm reposição depois de destruídas.
O veredicto dos pesquisadores é que a vocação da floresta amazônica é continuar sendo floresta. Outro tipo de vegetação - a agrícola, por exemplo, e as pastagens - alteraria o clima no Brasil. Lucro de um lado, pela produção de alimentos, e desastre de outro. O mundo tem o exemplo de Madagascar, na África, onde 93% das florestas foram devastados, formando-se um grande deserto de terras áridas, corroídas pela erosão. O mesmo acontecerá com a Amazônia se não houver controle. A Igreja Católica precisa focar-se nesses pontos vitais em sua Campanha.





