As usinas de açúcar (e agora também de álcool) parecem carregar o estigma de histórias do Brasil Colônia, quando essas indústrias e o cultivo de cana eram tocados por trabalho escravo. Porque esse ramo agroindustrial é caracterizado ainda hoje por serviço rude, mal remunerado e, se isso não bastasse, por atraso no pagamento de salários. E onde há plantações de cana e essas usinas, a pobreza se instala ao redor, porque não são cultivadas lavouras de subsistência, o trabalho nos canaviais é temporário (com uma constante rotatividade de trabalhadores de fora) e por isso muitos não se fixam. Por ser baixo o ganho (em torno de R$ 300/mês), essa renda não paga o sustento.
Visitando o Brasil no momento, a primeira-ministra alemã Angela Merkel foi incisiva ao declarar que a Alemanha não comprará etanol brasileiro se este for produzido por alguma forma que infrinja direitos dos trabalhadores. Sabe-se que essa infringência ocorre com relação ao extrativismo da cana, porque para ganhar melhor do que o já irrisório salário, jovens, operadores mais adultos e mulheres se submetem a aumentar as horas de trabalho, sabendo-se que esse tipo de atividade exige grande esforço físico e não comporta excessos. Faz quase três meses que a Usina Central do Paraná, em Porecatu, não paga seus trabalhadores, tanto os da colheita (que são a maioria) quanto os da indústria, e por isso eles estão em greve. A direção da usina esquiva-se de dar informações a respeito, sob o argumento de que ''o gerente está em viagem'', algo estranhável porque um dirigente não viaja com uma empresa dessas dimensões parada e com cerca de 3 mil trabalhadores inativos há mais de uma semana. O Sindicato dos Trabalhadores em Indústrias de Alimentação diz que a informação que tem da empresa é que está vivendo um momento de crise financeira, atribuída a uma suposta quebra de rendimento na safra anterior.
Como os trabalhadores não recebem, a comunidade de Porecatu e pequenas localidades vizinhas sofrem, pela ausência do giro de dinheiro. Por isso, comerciantes também se atrelam ao movimento para a regularidade do pagamento salarial. Porque a usina, com todos os percalços anunciados, dá suporte à economia da circunvizinhança.
Com salários atrasados, a fome se alastra, porque não há outra fonte de renda. O sindicato está pedindo cestas básicas ao Conselho Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação. Não é de hoje, mas desde o Brasil imperial, que se cultiva cana e se produz açúcar, e depois do Pro-Álcool passou-se a produzir também combustível, até chegar-se ao ponto da euforia de hoje com essa alternativa energética. É um paradoxo falar-se tanto da riqueza que o extrato da cana irá gerar ao Brasil (se ele já é produzido há tanto tempo) e trabalhadores do setor vivendo em semi-escravidão e passando necessidades básicas.

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