Agosto de 1986. O país estava mergulhado na euforia do Plano Cruzado. Os fiscais do Sarney patrulhavam os supermercados, os bares e os botequins. A temida Lei Delegada do Governo Federal autorizava o confisco de cabeças de gado no pasto. A atmosfera era a de ''todo o Poder aos Sovietes, de 1917''...
Neste clima de euforia radical, as donas de casa foram para as ruas no Brasil. Marchando em direção às gôndolas, numa marcação coreográfica que lembrava os defensores da Revolução Cultural Chinesa em 1968 com a tabela de preços congelada nas mãos pareciam exibir o todo poderoso livro vermelho dos pensamentos do Presidente Mao pelas avenidas de Pequim, ou da Rua Guajajaras (''Epa-Mineirão''), no centro de nossa capital. Seria interessante uma visita a locadora de vídeo para apreciar ''A Chinesa'', de Godard...
Seria suicídio político questionar o circo montado pelo Sarney e Cia. para eleger os candidatos do PMDB aos Governos dos Estados em 1986. O gaúcho Leonel de Moura Brizola, então Governador do Rio de Janeiro, percebeu a demagogia do Plano Eleitoral Cruzado e criticuou. Remou novamente contra a maré e pagou caro pela ousadia. Darcy Ribeiro, seu candidato ao Governo de Estado, foi derrotado... Passadas as eleições, como alertara Brizola, o Plano Cruzado foi para as calendas...mas o PMDB faturou alto, elegendo dezoito Governadores no país. Gostando ou não, temos que tirar algumas lições da história...
Diante da unanimidade, Nélson Rodrigues sempre soltava palavrão. Mas, o desejo de mudanças no país é enorme. Por isto mesmo, é fundamental não se perder a lucidez e a percepção crítica necessária para distinguir a realidade das fantasias induzidas pelo marketing político. E ter sempre em conta que, da euforia à depressão é um passo muito curto...
GILBERTO ARAÚJO é estudante de jornalismo em Belo Horizonte

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