EUA X Irã: um jogo letal
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quinta-feira, 09 de janeiro de 2020
Folha de Londrina 
Em poucos dias o Irã perdeu o líder Quassem Soleimani, depois de Trump enviar um drone letal para matá-lo em Bagdá, perdeu dezenas de pessoas pisoteadas no enterro deste mesmo líder e registrou um terremoto de 4,5 graus perto de uma usina nuclear. Definitivamente, o país começou o ano como centro das atenções mundiais pelo risco que cada um desses eventos oferece.
A morte de Soleimani foi vista por analistas do mundo todo como uma provocação do governo Trump que deflagrou um conflito fortíssimo nas relações entre os dois países, muitos chegaram a cogitar o início da terceira guerra mundial com o envolvimento de outras nações.
A posição do Brasil, a partir de uma declaração do presidente Jair Bolsonaro tomando o lado dos EUA para sinalizar uma guerra contra o terrorismo – mas deixando nas entrelinhas que se trata de um terrorismo seletivo - foi vista por diplomatas experientes como inadequada ou mesmo estapafúrdia. Uma nota do Itamaraty, divulgada pelo chanceler Ernesto Araújo, pôs mais lenha na fogueira: “O Governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo”.
Após esta declaração, Araújo saiu em férias como um garoto que usa o estilingue e sai de cena. Mas veio uma cobrança do Irã - que mantém boas relações comerciais com o Brasil – para uma explicação deste posicionamento tendo em vista a extensão de um conflito considerado seríssimo e que, até então, não dizia respeito ao Brasil.
Enquanto Araújo apelava para uma “aliança de todos os países contra o terrorismo”, China e Rússia, tradicionalmente mais belicosos que nosso País, tocavam na crise de forma diplomática, criticando o ataque norte-americano num tom mais de preocupação do que de condenação.
A partir disso, também as declarações das autoridades brasileiras começaram a se tornar mais equilibradas, embora a gafe diplomática já estivesse consumada. Fontes palacianas, segundo a imprensa nacional, aconselharam o governo brasileiro ir com menos sede ao pote. Também as lideranças do agronegócio, ao que consta, pediram para o presidente ficar mais “pianinho”, tendo em vista que o Irã é um grande parceiro do Brasil na importação de soja e outros produtos. Toda esta crise mostra que ainda falta ao governo o traquejo necessário para se comportar em nível internacional diante dos grandes conflitos.
O Irã convocou o Brasil para dar explicações sobre o “imbróglio' diplomático na última segunda-feira (6). Segundo o Itamaraty, a conversa tem teor reservado. Mas o puxão de orelhas foi claro a partir da própria convocação.
Enquanto isso, Trump aparentemente pôs panos quentes no conflito após o Irã disparar mísseis contra bases americanas no Iraque. Houve quem estranhasse a notícia de que “nenhum americano foi morto”, embora o supremo líder do Irã, aitaolá Khamenei, tenha declarado que o bombardeio em duas bases do Iraque na terça-feira (7) foi “um tapa na cara dos EUA”.
De ataque em ataque, a crise está longe de ser resolvida. No momento, ninguém sabe o que se passa na cabeça de Trump, ora avançando – e testando sua popularidade para as eleições presidenciais – ora dando sinais de recuo, mas não sem antes declarar que “haverá mais sanções contra o Irã.” As lideranças mundiais, a começar por Trump, se comportam de forma irresponsável sem avaliar que cada atitude tem impacto positivo ou negativo sobre a vida de milhares de pessoas. Passou da hora dos governos se comportarem com a sobriedade que seus cargos exigem, em vez de se comportarem como adolescentes jogando um videogame letal.


