EUA: quanto mais rico, menos generoso
O Tio Sam, esse personagem de ficção que tem nas mãos uma cartola com estrelas e listras e usa uma vestimenta colorida, é a personificação dos Estados Unidos. Mas, o poderoso Tio Sam tem se comportado mais como o Tio Scrooge, esse personagem de Dickens que representa o avaro típico, quando se trata de proporcionar ajuda econômica aos países mais pobres do mundo. O Banco Mundial calcula que 1,2 bilhão de pessoas que vivem em países de baixa renda subsistem com menos de US$ 1 por dia. Apenas no sul da Ásia (incluindo a Índia), estima-se que 522 milhões de pessoas, ou 40% da população, sobrevivem a duras penas com menos de US$ 1 diário. O mesmo acontece com 291 milhões de pessoas, ou seja, 46% da população, na África Subsaariana.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 800 milhões de pessoas que vivem nas nações subdesenvolvidas estão desnutridas. Como resultado da má nutrição, aproximadamente duas em cada cinco crianças nos países pobres estão fisicamente mal desenvolvidos ou raquíticos, e uma em cada três está significativamente abaixo do peso mínimo normal.
Estes terríveis números parecem não ter importância para o Tio Scrooge. A ajuda econômica proporcionada pelo governo dos Estados Unidos aos países mais pobres do mundo caiu drasticamente nos últimos anos. Um relatório do Centro sobre as Prioridades Orçamentárias e Políticas, com sede em Washington, indica que, durante a década de 80, o valor da assistência econômica para os países empobrecidos era de, em média, 0,2% do Produto Nacional Bruto (PNB) dos Estados Unidos, aproximadamente o dobro da cifra atual. Entre 1962 e 1969, a ajuda externa para os pobres oscilou entre 0,37% e 0,58% do PNB norte-americano. Em 2000, os fundos destinados à assistência econômica externa totalizaram US$ 11,1 bilhões, ou seja, 0,12% do PNB.
Um recente estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), com sede em Paris, concluiu que os Estados Unidos se situam decididamente em último entre os 21 países ricos industrializados no tocante à assistência às nações pobres. Em média, os outros 20 países industrializados da OCDE contribuíram com uma porção de seus recursos econômicos três vezes maior do que a do Tio Scrooge.
Enquanto em 1998 a ajuda externa norte-americana foi equivalente a US$ 29 para cada um de seus cidadãos, a ajuda proporcionada pelos outros países industrializados, nesse mesmo ano, ficou em US$ 70 por cidadão, em média. A Dinamarca encabeçou a lista com US$ 316 para cada um de seus cidadãos. Embora o Tio Scrooge seja reprovado por sua avareza, ele mesmo diz que não há motivos para preocupações e que é preciso deixar que o livre mercado atue com sua magia, graças à qual os países pobres se beneficiarão junto com todos os demais.
Desafortunadamente, o livre mercado não está agindo desse modo. A Forum Syd, organização não-governamental com sede em Estocolmo, compilou uma série de estudos que mostram que as políticas de livre comércio estão prejudicando os pobres e enriquecendo ainda mais os ricos. Antes da liberalização do comércio, entre 1960 e 1980, a renda per capita na África cresceu um terço, mas, de 1980 em diante, caiu em um quarto. Na América Latina, as rendas percentuais cresceram 73% entre 1960 e 1980, mas, desde então aumentou em apenas 6%.
Somente em algumas partes da Ásia, especialmente na Indonésia, Coréia do Sul, China e Taiwan, houve uma significativa queda da pobreza durante os últimos 20 anos, mas estes países fizeram uso de extensas restrições comerciais. O Tio Scrooge talvez não queira admiti-lo, mas as devastadoras consequências do livre comércio são evidentes e muito próximas de sua casa. Segundo o Fundo Internacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD), mais de 220 milhões de pessoas estão sumidas na pobreza na América Latina e no Caribe. Estas estatísticas indicam que a pobreza aumentou na região em 20% nos últimos quatro anos.
Durante os anos 90, os governos latino-americanos esmeraram-se para colocar em prática as receitas econômicas prescritas pelo Tio Scrooge. Sob o olho vigilante do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), as políticas que refletiram o dogma neoliberal foram introduzidas num ritmo nunca visto antes. Dolorosas medidas de austeridade foram impostas para reduzir déficits orçamentários e a inflação, e liberalizaram-se as leis financeiras, comerciais e trabalhistas a fim de estimular o crescimento econômico. Apesar destes remédios ou por causa deles o desemprego e a pobreza estão mais difundidos do que nunca na América Latina. A dívida latino-americana em seu conjunto triplicou desde a crise da dívida de 1982 e chega a US$ 900 bilhões, enquanto a distância entre ricos e pobres aumenta consideravelmente.
É sabido que no conto de Charles Dickens o irascível velho conhecido como Scrooge viu, embora com atraso, a luz e mudou suas atitudes egoístas. Por outro lado, a cota orçamentária destinada à ajuda das nações pobres no ano fiscal de 2001 está em seu mais baixo nível, com relação ao tamanho da economia dos Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial.
- MARTIN A. LEE é escritor em San Francisco (EUA) (IPS)
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