Eu quero sonegar o meu imposto - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de abril de 1999
Arlete Salvador 
Com licença, vou defender o meu peixe. Estamos nos últimos dias do prazo para a entrega das declarações do Imposto de Renda do ano passado e a Receita Federal ainda não me devolveu o que me deve do ano anterior. Como eu, alguns milhares de brasileiros esperam a restituição. A justificativa oficial é que estamos na malha fina. Cometemos algum erro, precisamos dar explicações. Não é bem assim.
Na Receita me informam que estou na fila de espera para receber o que me é devido. Fico pensando na eficiência com que se salvam bancos incompetentes com o seu, o meu, o nosso dinheiro, enquanto se enrola com a barriga a devolução de imposto cobrado indevidamente do contribuinte. São mesmo dois pesos e duas medidas. Bancos, se quebrarem, quebram o sistema financeiro. Trabalhadores, se não recebem o que lhes é de direito, são gente chata e privilegiada, que não tem nada mais para fazer na vida do que reclamar.
Levando em conta os milhões de miseráveis, que não pagam Imposto de Renda, e os espertalhões, que o sonegam, os que pagam são mesmo uma minoria privilegiada. Somamos cerca de 8 milhões de pessoas. Temos nome, endereço, telefone, número de CIC. É fácil nos encontrar e, mais fácil ainda, enfiar a mão no nosso bolso sempre que alguém do governo vem com a história de fazer um ajuste de contas para acabar com o déficit público.
O que eu pago de Imposto de Renda por ano equivale a dois meses de trabalho. E trabalho duro. Ao contrário do que nos promete a moderna tecnologia, estamos trabalhando cada vez mais. O conceito de dedicação a um ofício se alargou. Atualmente, Não basta cumprir a jornada de trabalho. É preciso fazer cursos, aprender uma terceira língua (só inglês não basta), participar de seminários, ler livros técnicos e romances, navegar na Internet e ver televisão a cabo. Trabalhar significa dedicar boa parte da vida ao trabalho. Portanto, dedico dois meses da minha vida, todo ano, ao pagamento do Imposto de Renda.
Em princípio, não reclamo. Acho que pagar imposto é um dever para com a sociedade, uma forma de contribuição à melhoria de condições de vida dos mais humildes. Se esse meu tempo e dinheiro fossem gastos em escolas para crianças carentes, em abrigos para velhinhos abandonados, em hospitais decentes, em professores sérios, em políticas de emprego viáveis e conscientes, pagaria feliz.
Entretanto, o resultado de dois meses de trabalho que desempenho vai acabar na mão de banqueiros e outras gentes que não compartilham comigo as idéias de ética e de dever para com a sociedade. No final das contas, a minha ingenuidade, digamos assim, em prestar contas ao Leão serve menos ao miseráveis, que não pagam, e mais aos espertalhões, que sonegam.
Assim, neste momento em que devo fechar a minha declaração de Imposto de Renda do ano passado, irritada com a demora da Receita Federal em devolver o que me tomou a mais em 1998 e com o uso que se faz da minha contribuição pessoal ao País, tudo o que eu quero é sonegar.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


