Curitiba - O novo e quarto bispo eleito para a Diocese de Apucarana, monsenhor Celso Antônio Marchiori, 50 anos, ainda não está de malas prontas para se mudar para a região Centro-Norte do Paraná. Mas já sabe o que vai levar consigo. ''Meus livros e minhas roupas. Temos pouca coisa mesmo'', disse. Apesar do semblante sereno, o sacerdote não esconde um pouco da ansiedade que vive desde que foi nomeado pelo Papa Bento XVI, no dia 8 de julho, para suceder dom Luíz Vicenzo Bernetti, bispo que renunciou à função ao completar 75 anos - como manda as normas do Vaticano.

''Será uma mudança radical na minha vida. Clima, cultura, pessoas. Sem falar na nova missão'', confessa ele, que soma 21 anos de sacerdócio dedicados, praticamente, à educação religiosa e à coordenação da Formação Permanente de Sacerdotes da Arquidiocese de Curitiba. Desde 2006 exercia a função de reitor do Seminário Santíssimo Sacramento, local onde os seminaristas concluem o curso de Teologia e fazem o acompanhamento para o ingresso no presbitério.

Natural de Campo Largo, monsenhor Celso escolheu a Catedral Basílica Nossa Senhora da Luz, em Curitiba, para realizar a cerimônia de ordenação de bispo, no próximo dia 28. Isso faz parte da preparação para ordenação de bispo'', conta. Ele vai se mudar para Apucarana em 2 de outubro, mesmo dia que ocorre a cerimônia para tomada de posse da Diocese, na Catedral Nossa Senhora de Lourdes, às 19 horas.

Como o senhor recebeu a nomeação para ser o novo bispo da Diocese de Apucarana?
Recebi a notícia no dia 8 de julho. Foi em Brasília que o Núncio me comunicou que o Santo Padre havia me nomeado bispo diocesano de Apucarana. No momento eu fiquei preocupado e pensativo, enquanto ele me ajudava a compreender a grandeza da missão. Disse que não me sentia capaz de assumir essa missão por não ter feito, como os outros bispos, cursos em Roma, doutorado, mestrado, mas ele me disse que eu tinha sido escolhido porque reunia condições para exercer essa missão. Confesso que o convite me fez muito feliz, ao mesmo tempo que me fez tremer por dentro.

Quais são suas atribuições como bispo, agora?
Sou um bispo eleito, ainda não sou ordenado. A missão do bispo é evangelizar, a pregação é a atividade mais importante. Depois, vêm as atribuições de santificar e administrar os sacramentos, governar o ensino, a pastoral. Mas, de certa forma, já lidei com tudo isso como padre no seminário e paróquia e colaborando com o arcebispo de Curitiba. O que vai mudar é a amplitude dessas atividades.

O senhor conhece a região de Apucarana? Quais são suas expectativas em relação àquela Diocese?
Passei por Apucarana há uns três anos, quando fui para a ordenação de dom Dirceu Vigini, que é o bispo auxiliar de Curitiba e é natural de lá. Passei uma noite apenas na cidade. Sei que 35 municípios compõem a Diocese, são mais de 60 paróquias, mas pouco sei sobre a cultura local. Lembro da Catedral de Nossa Senhora de Lourdes, que é muito linda e ouvi falar muito bem da sociedade eclesial e social de Apucarana. Mas estou tranquilo e confiante em Deus. Não foi uma escolha minha ir para lá. Recebi um chamado do Divino Espírito Santo.

Parece que a região ficou surpresa com sua indicação, o senhor também sentiu isso?
Provavelmente eu não era um nome esperado lá em Apucarana. Eles nem me conheciam também, então, é natural que esse tipo de sentimento tenha existido. Da mesma forma que foi uma surpresa para eles, foi para mim também. Recebi muitas correspondências, e-mails e telefonemas de lá. Já veio um grupo de padres também me visitar. Me sinto muito acolhido por Apucarana.

Sabe-se que a Diocese de Apucarana é caracterizada por ser uma região de paróquias progressistas...
Precisamos progredir sempre na Igreja e acompanhar a evolução da técnica para evangelização. Eu não enxergo uma igreja com o rótulo de progressista, mas como uma igreja que dá continuidade ao processo evangelizador que o nosso senhor Jesus Cristo iniciou há 2 mil anos. Em cada época, a Igreja vai se adaptando aos novos tempos. Hoje temos que aproveitar os meios de comunicação e a internet para evangelizar. Eu mesmo tenho um blog (www.padrecelso.zip.net) e um site (www.fontedealegria.com.br). Não tenho dificuldade em dialogar e, se existe uma realidade mais progressista em Apucarana, não acho que isso vá dificultar nosso trabalho.

Mas o senhor simpatiza com a corrente progressista?
As pessoas me perguntam se sou progressista ou conservador. Eu quero ser um bispo em comunhão com o Magistério da Igreja. Quero trabalhar para a libertação de tudo que nos impede de unir a realidade ao Reino de Deus. Jesus nos pede: ''Sai pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a todas as criaturas''. Eu quero ser um profeta.

O que o senhor ouviu falar sobre os intensos movimentos sociais na região do Vale do Ivaí, com forte atuação dos seguidores da Teologia da Libertação?
A Teologia da Libertação não é algo de outro mundo. Toda teologia é de libertação porque nos esclarece e amplia nossos conhecimentos. O trabalho social faz parte da Igreja. Nós temos que usar deste potencial que a prória Igreja coloca à nossa disposição. Temos os documentos sociais da Igreja, do Papa, da CNBB. Estou aberto ao diálogo religioso e ao ecumenismo. Vou chegar em Apucarana totalmente desarmado de ideologias.

O senhor concorda que padres sejam eleitos prefeitos, como aconteceu em Apucarana?
Já ouvi falar sobre o caso, mas não sei se existem outros. Eu vou conversar com esses padres e ver como isso se processa. Eu não sabia que padres poderiam exercer também a função de prefeitos. Quero saber se estão ajudando o povo, ver a realidade local e conversar com eles, além de me atualizar do que a Igreja pensa disso. Não vou falar do que não conheço.

O senhor acredita que vai enfrentar muitos desafios nessa nova missão?
Para mim um desafio grande na Igreja, hoje, são as vocações sacerdotais. O chamado de Deus aos jovens para o seguimento de Jesus Cristo em relação à vida sacerdotal existe de fato. Mas devido às situações do mundo, os jovens não têm muitas oportunidades e um ambiente favorável para escutar e responder a esse chamado. Quero enfrentar o desafio das vocações sacerdotais, religiosas e missionárias com bastante força e serenidade com os colaboradores de Apucarana. Se for possível, até quero enviar padres de lá para outras igrejas que estão precisando no Brasil e no Exterior.

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