Eu prometo mundos e fundos
Gaudêncio Torquato
A campanha eleitoral está começando hoje e o discurso do ‘‘eu prometo’’ vai inundar as ruas e os lares dos brasileiros. Aparecerão milagreiros, falsos profetas, heróis, feiticeiros, homens destemidos por todos os lados. Apesar de a campanha estar confinada ao âmbito municipal, os problemas nacionais e estaduais – é claro – deverão ser passados a limpo e resolvidos pela maioria dos candidatos. Um gigantesco nariz de Pinóquio vai começar a aparecer e, por incrível que pareça, a desfaçatez de muitos candidatos, de tão incorporada na cultura política, será considerada coisa natural.
O ‘‘eu prometo’’ vai se desdobrar em alguns ângulos. Candidatos à reeleição usarão o primeiro tempo do discurso para falar do passado, ou seja, ‘‘eu prometi e fiz’’. Mostrarão os feitos, as obras, as promessas. E dirão que fizeram muito mais do que prometeram. E isso vai passar batido, porque a imensa maioria dos eleitores não terá nenhuma paciência para pesquisar as coisas prometidas na campanha de 1996. O relatório da administração deverá funcionar como selo de qualidade, induzindo o eleitorado a ‘‘comprar’’ a idéia de continuidade. A pincelada cosmética a ser dada pela TV, no programa eleitoral gratuito, vai esconder os buracos não preenchidos pela prefeitura.
O segundo momento do discurso será dedicado à continuidade. O prefeito e seus correligionários vão dizer que uma ‘‘obra tão grandiosa’’ precisará ser concluída. Nesse ponto, cabe refletir sobre as idéias postas. São factíveis, objetivas, claras? Atendem as demandas do município, do bairro, da região? Há dinheiro para fazê-las? Por quê não foram feitas antes? Eram ou não prioritárias na primeira administração?
Os candidatos da oposição procurarão mostrar os buracos, as lacunas, as promessas não cumpridas. Passarão muito tempo procurando desqualificar a administração. Tempo perdido, a não ser que tenham grandes denúncias a fazer, principalmente envolvendo aspectos como favorecimentos, superfaturamentos, corrupção. O eleitor, porém, sabe que o ‘‘bate-boca’’ faz parte da campanha e acabará não se interessando pela polêmica. Está saturado da velha política.
O segundo momento do candidato de oposição será dedicado à apresentação de seu programa. Se não for criativo, forte, denso, não chegará na cabeça do eleitor. É claro que se a administração foi vergonhosa, a atenção para os candidatos de oposição será maior. O discurso de ‘‘virada de mesa’’, contundente, radical, porém, não vingará. O eleitor quer, sim, mudanças, porém, com cautela, senso de responsabilidade e muita clareza sobre o que e como vai mudar.
O discurso do ‘‘eu prometo’’ estará muito centrado nas periferias e nas classes sociais abaixo da linha da pobreza. A criança e o adolescente receberão muita ênfase. As classes médias deverão ser atendidas com programas de embelezamento das cidades e obras viárias de certo impacto. As questões da segurança e do emprego – os dois maiores problemas das capitais e grandes cidades – serão o gargalo das campanhas. Apesar de dependerem de políticas mais globais – federais e estaduais – há maneiras de se enfrentar os problemas, no nível municipal.
Primeiro, é preciso considerar que as questões são interligadas. O desemprego aumenta os níveis de violência e criminalidade. Portanto, os programas dos candidatos terão, necessariamente, que contemplar uma abordagem desenvolvimentista, trabalhando-se eixos como a construção civil, os micro e pequenos empreendimentos, financiamentos e isenções fiscais, requalificação de trabalhadores, mutirões para ocupação de mão-de-obra nos equipamentos municipais etc.
O discurso do ‘‘eu prometo’’ será, nesta campanha, mais fiscalizado. A campanha começa com um eleitor desinteressado. A partir de 15 de agosto, com a programação eleitoral, o clima será mais quente. Em setembro, todas as idéias estarão postas. O processo decisório final, para campanhas em pé de igualdade, ficará para os últimos 10 dias. É preciso ter muito cuidado com o discurso do ‘‘eu prometo’’. Ele poderá provocar uma reversão de expectativa e fazer com o que eleitor prometa não votar no candidato.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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