Eu, personagem acorrentado
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segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Espaço Aberto 
Em filmes, peças teatrais e nos livros de ficção surgem personagens cuja ação principal é sua relação. O autor do texto se concentra na criação da maneira com que vão se relacionar, fazendo com que atraiam para si uma determinação de como o público os irá reconhecer a partir da forma que os percebem em suas relações. Isso ele faz baseado na realidade, ou seja, o processo de elaboração da história passa, necessariamente, pela observação da vida, o que inclui pessoas, culturas, ambientes, sejam reais ou criações fictícias. O foco do olhar do autor estará voltado para as relações, em geral, conflituosas. São elas quem garantem o tônus, a força do texto. Assim, quem escreve é como que aprisionado por aquelas principais características relacionais dos personagens que cria. Essas características como que ditam ao autor o desenvolvimento do enredo.
Por outro lado, elas vão como que se aferrando, se subjugando ao autor e àquelas características por ele criadas. Diria que delas é retirada qualquer possibilidade criativa e espontânea. E se Michael Corleone perdoasse seu irmão Fredo ao ser traído por este? E se Scar não fingisse arrependimento quando Simba resolve retomar seu lugar no reino? Talvez não os reconhecêssemos em suas novas respostas.
Esse é o ponto. Na ficção, a forma como se constrói a história de cada personagem e a dos grupos a que pertence e que o circunda servirá para ditar as formas preestabelecidas para suas respostas. A cultura vingativa, machista, centrada no sucesso a qualquer custo, por exemplo, no caso da construção do Poderoso Chefão. Significa que o lugar de onde vem o personagem ajuda na sua construção e o impede de abandonar sua cultura, seu modo de pensar a vida e as relações que o cercam. O autor, ao criar o personagem, é obrigado a respeitar a cultura, o ambiente e, portanto, seu modo de entender o mundo. Terá que circunscrevê-lo considerando seu histórico pessoal, a maneira como introjetou valores familiares, ter sido mais ou menos reconhecido em suas angústias, a maneira de elaborar ou não certas dores, a capacidade de aceitar e superar frustrações, e assim por diante. De crescer pensando ser o responsável pela morte do pai, no caso do Rei Leão, por exemplo. A noção de ética, de honra, de amor, de desamor, tudo criado e desenvolvido a partir de suas relações.
Ao psicodrama é bastante sensato pensar que, como na ficção, temos personagens que internalizamos enquanto nossa história é construída. Tendo a autoria de nossas vidas nas mãos, fazemos a construção possível de um personagem com a qual passamos a nos relacionar com o mundo que nos rodeia. Complementamos as relações com essa pessoa com quem nos acostumamos a chamar de “eu”, mas que existe somente em relação a alguém. Porém, essas relações atuam de forma a trazer a tona determinado personagem. Bondoso, opressor, violento, gentil, destruidor, e assim por diante. Por necessidade de sobrevivência emocional, talvez o impacto da cultura, do ambiente familiar que tivemos (ou que não tivemos) sobre essa criação provoque o surgimento de um personagem que insiste em surgir em muitos dos papéis em que a pessoa atua. Assim fica difícil viver como protagonista, suficientemente espontâneo e criador de vida e não apenas repetidor de um modo de ser predeterminado. Esse um motivo de não tornar-se quem gostaria de ser. Por outro lado se carrega como que encapsulado, guardado e inacessível ao outro, talvez apenas em nível de fantasia, a quem se gostaria de disponibilizar existência. Nesse sentido, Sintia Lira se faz célebre com essa frase: “Perdi a espontaneidade me forçando a ser eu; só assim descobri que ser 'eu' é ser o que eu estiver sendo.”
A psicoterapia psicodramática se constrói também a partir desse entendimento. Proveniente do teatro e, por isso mesmo utilizando técnicas dramáticas, quer oferecer possibilidades existenciais que ultrapassam esse “eu” que arrastamos com pesadas correntes – e oferece novo modelo relacional descomprometido com os julgamentos que contribuíram com o surgimento desse ser no mundo – trazendo maior criatividade e espontaneidade relacional. O processo psicodramático colabora para se alcançar o estado apregoado por Martin Buber:
“Nenhum código preconcebido pode ver à frente tudo o que pode acontecer na vida de um homem. Conforme vivemos, crescemos e nossas crenças mudam. Elas devem mudar. Assim, penso que devemos viver com esta constante descoberta. Devemos ser abertos para esta aventura em um grau elevado de consciência de viver. Devemos apostar nossa inteira existência em nossa disposição para explorar e experimentar.”
PAULO CESAR DE OLIVEIRA, psicólogo, psicodramatista, psicoterapeuta e cofundador do Instituto Atiaru de Psicodrama


