Recebi, em meu consultório, um jovem de 30 anos, numa cadeira de rodas, sob anestesia geral. O neurocirurgião havia aberto sua cabeça na busca de um projétil de arma de fogo. Um estrago enorme e apavorante. Sua história? Motorista de carro-forte, transportava dinheiro. Maldito e bendito dinheiro. O carro foi assaltado por ladrões sanguinários. Dois ou três tiros atingiram o rapaz.
Não existe situação humana mais desoladora do que ver alguém com a cabeça aberta e sangrante, olho perfurado e vazando, caminhando para a morte ou para a invalidez. Neste momento, como médico e como cidadão, desejei que estivessem ali, para pleno testemunho de uma enorme desgraça individual (e coletiva), o nosso presidente da República, ministros de Estado, senadores e deputados, todas a autoridades do Poder Judiciário, toda a imprensa e todas as lideranças desta nação.
Porque ali estava o Brasil nu e cru, o Brasil do cotidiano, da insensatez, da insegurança, do terceiro mundo, o Brasil nojento, o Brasil que precisa mudar, e mudar radicalmente. E o Brasil estava deitado ali, impotente, entubado, inerte, com seu destino entregue às mãos alheias, com a morte e paralisia impacientes para entrar em cena. Horas de suplício e de meditação para nós, médicos. E que poderiam ser as melhores horas para que os dirigentes deste Brasil fossem envolvidos e invadidos pelo senso de responsabilidade plena com os valores essenciais da dignidade humana.
Naquele momento, aquele homem era o Brasil encarnado, palpável e neoliberal. Passavam por ele toda a fragilidade nacional: saúde, educação e segurança. E desejei muito que estas autoridades acompanhassem todo o processo enfrentado por aquele Brasil/homem/funcionário, desde o momento da catástrofe, seu encaminhamento para o Hospital, a notícia para os familiares, as dificuldades cirúrgicas, os vários dias na UTI, a luta entre a morte e a paralisia, o definhamento do corpo físico, a angústia do espírito, a alta hospitalar, a chegada em casa no lar muito pobre, a duríssima realidade da cadeira de rodas, a impotência sexual, a impotência financeira, o choro da mulher e dos filhos, a consciência de uma invalidez para sempre. Oh, Deus! Onde estás que os homens de Brasília não Te acham e nem Te procuram?
A esposa pede ajuda para levar o marido até o táxi, sabendo da cegueira e da paralisia definitivas. De minha parte, a desilusão de mais uma tragédia caminhando para o anonimato; enquanto precatórios, roubalheiras e alicantinas políticas comovem mais a opinião pública no País das chuteiras e da cachaça. O salário da vítima era de R$ 350,00; de agora em diante, sob a guarda do que restou da Previdência, dependendo de perícias e burocracia, será de R$ 120,00. A firma arruma outro motorista, a vida continua, os companheiros se afastam e está tudo dentro da normalidade tupiniquim.
O leitor chorou, certo? Mas o que resolve mesmo, para salvar o Brasil, é destruir, para sempre, a corrupção e a impunidade. Ad perpetuam rei memoriam!
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia (MG)

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