O sr. Gustavo Franco saiu do governo ‘‘como entrou: atrevido, arrogante, sem papas na língua’’, bem o definiu a jornalista Eliane Castanhêde, da ‘‘Folha de S. Paulo’’. O discurso de despedida do ex-presidente do Banco Central, segunda-feira, foi não só revelador de uma personalidade forte, de um caráter intransigente e de uma confiança inabalável nos próprios métodos e méritos; foi, acima de tudo, um documento histórico. Porque, em primeiro lugar - e minha memória não é das melhores - é raro assistirmos a uma transmissão de cargo na todo-poderosa instituição do BC em que o demissionário atira contra tudo e todos. Não me lembro de nada parecido, nem de longe, e se estiver errado, por favor, me corrijam. Em segundo, porque, finalmente, alguém que até pouco tempo atrás ocupou cargo de tamanha responsabilidade passou o recibo de que estamos sendo vítimas, coisa que nem o pipoqueiro da Catedral acredita, ‘‘da imprevisibilidade das crises externas que contaminaram a economia brasileira’’.
Todo discurso permite uma gama infinita de interpretações, mas este ponto da fala de Gustavo Franco contém um dado revelador - e francamente assustador: nossas autoridades econômicas não foram capazes de prever que poderíamos ser uma das peças do dominó que começou a ruir após o desastre financeiro, e em seguida econômico, que tomou de assalto as economias emergentes da Ásia. E isto foi em setembro de 1997 - um ano e quatro meses antes da implosão do nosso querido real!
Há muitas crises externas que não podem ser previstas, e o naufrágio do bath, a moeda tailandesa, a primeira vítima do naufrágio global, pode ser considerada uma delas. Mas o efeito em cascata que golpeou duramente os países asiáticos, incluindo o até então onipotente Japão, poderia ser menosprezado por um plantador de abóbora de Mamborê, jamais por cabeças tão ilustres e cérebros privilegiados - todos PhDs nas mais conceituadas instituições de ensino do exterior - como os que compunham e ainda compõem a tal da equipe econômica do governo.
Por que a Tailândia foi a primeira vítima? Talvez por decisão do Destino, mas não fosse ela seria qualquer outro país ‘‘emergente’’ com as contas externas e internas em déficit crescente. Entre esses países lá estávamos nós, com uma taxa de câmbio teimosamente artificial e uma política monetária aplicada com rigidez à iniciativa privada, mas perdulária em relação aos gastos do governo. A alta taxa de juros lançou o governo num terrível ciclo vicioso, pois os juros atraiam o capital externo (especulativo, de giro rápido), que por sua vez financiavam nosso déficit em conta corrente, que por sua vez aumentava devido à perda da competitividade de nossos produtos. E no final da pastaciutta, nossa dívida externa e interna, recheada e temperada ao molho pesto e pelos mesmos juros altos, chegou onde está, acima de US$ 500 bilhões.
O sr. Gustavo Franco acusou os ‘‘desenvolvimentistas irresponsáveis’’ e as ‘‘vozes influentes’’ de co-responsabilidade pela desvalorização brutal do real após sua saída do Banco Central. E mais uma vez - e não poderia ser de outra forma, pois sua gestão à frente do BC se resumiu à defesa férrea da força imaginária de nossa moeda - recusou-se a enxergar o óbvio: que o real estava sobrevalorizado e sua desvalorização gradual, feita antes de sermos atingidos pelo maremoto da crise financeira global, poderia ter causado menos estragos do que acabou provocando seu súbito naufrágio.
A troca de comando no BC nos coloca, mais uma vez, diante de duas surradas questões: a necessidade de independência desta instituição e a exigência de uma ‘‘quarentena’’ a que seriam submetidos seus ex-diretores antes de assumirem qualquer cargo (normalmente muitíssimo bem remunerado) em empresas privadas.
O sr. Gustavo Franco está se contentando, no momento, a voltar a lecionar no Rio de Janeiro e a escrever artigos para um ou outro jornal. Neste ponto, merece aplausos, pois muitos antecessores dele nem esperaram a cadeira esfriar no BC para sentar em outra, do outro lado do balcão. A questão mais grave, da independência do BC, continua insolúvel, e, se depender da disposição do atual governo, assim o será, pelos séculos dos séculos, amém.
Tivéssemos um Banco Central autônomo e não cairíamos na armadilha que o Plano Real nos preparou. Pois, certamente, após a crise asiática, que acionou o alarme em todo o mundo, estaríamos melhor preparados. Um presidente de Banco Central, dotado de toda a independência para ditar a política monetária, teria meios para fazer os ajustes necessários para proteger nossa moeda, gostasse ou não o governo, como, aliás, está cada dia mais careca de fazer o sr. Alan Grespan, diretor do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano. ‘‘Como seria a decolagem do Real se começássemos com uma política monetária frouxa e uma desvalorização cambial?’’, perguntou Gustavo Franco em seu libelo. E respondeu: ‘‘Eu lhes digo, seria um desastre’’.
Pois bem, evitamos o desastre na decolagem, mas não conseguimos alcançar o aeroporto da prosperidade. O Plano Real implodiu em pleno vôo, porque a tripulação teimou e teimou que, apesar da tempestade, dos raios, da turbulência, da falta de combustível e daquela imensa montanha que os radares acusavam - a montanha do déficit público - daríamos um jeitinho e tudo acabaria em festa.
Eu lhe digo, sr. Gustavo Franco: foi um desastre!
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha em Londrina

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