Eu, botocudo, confesso
Sim, o nosso príncipe presidente plenipotenciário Fernando Henrique cometeu na semana duas deselegantes depreciações: uma sobre os funcionários públicos, subentendidos como sugadores de tetas estatais; outra sobre os botocudos, vistos como retrógrados aborígines nacionalistas.
Pois bem, eu, botocudo, tenho a dizer que assumo a condição honrosa de ser uma espécie em extinção nesse asséptico e acadêmico tapete de vaidades e cinismo neoliberal que reveste a política brasileira, ora em banal exercício de notáveis e frases de efeito.
Eu, botocudo, sou filho da tribo que origina o termo por usar batoques discos e apliques de madeira no corpo. Tribos dizimadas nos territórios hoje da Bahia, Minas, Espírito Santo e até no Sul, nas regiões dos rios Itaiaí, Canoas, Pelotas e Iguaçu (representados nos xoklengues ainda existentes em Ibirama/Santa Catarina). Botocudo foi um rótulo genérico do século XVI adotado só pelo uso do adorno. Depois foi assumido como selvagem, caipira, atrasado, rude. Alguns aimorés, que viraram marca de biscoitos, levaram fama de botocudos e muita bala.
Botocudos foram extintos pela sifilização ocidental, e a primeira declaração da chamada guerra justa veio por D. João VI, em 13 de maio de 1808. Acusação: canibalismo. Coisa que os botocudos não praticavam. D. João não tinha Otan, mas sabia colocar tudo no mesmo saco para a faxina étnica.
Para um presidente, brilhante pensador de escritos que não conseguimos esquecer ainda, tal descontrole pesa muito. Eu, botocudo, mestiço, nacionalista, reajo por não ser irracional ou xiita que milita sob a canga de algum partido. É cruel, e eficaz, anular opiniões contrárias desqualificando-as como previamente jurássicas. Chamar de delirante poeta também é um modo de impedir a doce lucidez dos loucos que amam a pátria viva e não a dos gabinetes, mapas, símbolos. Daí estarmos nessa honrosa família botocuda que nem nacional era. Filhos da Natureza Universal.
O cacique xoklengue, Kãnhãnhá, não se considerava botocudo mas um do povo iacranon, o que conhece o caminho. Capacidade honrosa que, decididamente, nós, poderosos da etnia vencedora, não temos. Principalmente os arrogantes acadêmicos da supremacia branca que nem disposição sincera para encontrar um caminho demonstram, quanto mais conhecê-lo. O cacique declarou ao antropólogo Silvio Coelho, da Universidade Federal de Santa Catarina: Fomos nós que amansamos os brancos. Pelo visto, dignos botocudos precisam visitar o Planalto para ajudar na distinção entre economia aberta e entreguismo subserviente.
O mais curioso é que o nosso genial Milton Nascimento foi chamado, em criança, botocudo devido ao imenso bico de birra que fazia. Daí derivou seu apelido carinhoso, Bituca. Mais um da casa. E o termo botocar foi incorporado no sertão como gíria para saltar fora, com rapidez, homenagem à ligeireza das tribos. Ora, sai dessa, doutor. Botoque-se!
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





