Eu acredito em fadas - Fernando José Dias da Silva
Eu acredito em fadas
Fernando José Dias da Silva
Ainda bem que existem as boas almas. O prefeito de São Paulo ganha muito pouco, não consegue manter o seu padrão de vida e nem o de madame que ainda por cima lhe faz desaforos e quer vê-lo na cadeia. Aí entram as pessoas que, com amor no coração, se sensibilizam o empresário George Yunes, por exemplo, que como bom cristão abre o bolso e dá R$ 800 mil para que o coitado do prefeito possa sobreviver.
Recentemente outras demonstrações de generosidade também aconteceram. Renato Guerreiro, o presidente da Anatel, é fanático por corridas de automóvel. Só que não tinha como ir a Interlagos para assistir ao Grande Prêmio. Não é que as empresas telefônicas ficaram sabendo e o convidaram para seus camarotes no autódromo. Pelas fotos dava para perceber a alegria de Guerreiro, ao lado de modelos famosas, de boné e camisetas vermelhas para torcer pelo nosso Rubinho. Foi tocante.
Bem fez o presidente da República que mandou avisar que não achava nada de anormal no fato das empresas de telecomunicações poderem realizar o sonho de Renato Guerreiro, dar-lhe um pouco de diversão para que ele pudesse esquecer, pelo menos naquela tarde de domingo, os múltiplos afazeres que tem na presidência da Anatel que é a Agência Nacional de Telecomunicações, o órgão criado pelo governo depois das privatizações justamente para fiscalizar as empresas telefônicas, multá-las se houver necessidade ou mesmo cassar suas concessões nos casos mais graves. Mas ver a felicidade de Renato Guerreiro no meio daquela gente toda compensou todos esses comentários maldosos de quem não tem mais nada o que fazer.
É fato positivo o surgimento do mecenato político. Se um Estado moderno como nosso não tem mais numerário para prover funcionários ou agregados porque está mais enxuto e investindo em coisas mais importantes, nada mais natural que apareçam figuras desprendidas, sem segundas intenções, para ajudar as pessoas que ocupam cargos não deixá-las em situações constrangedoras.
É impressionante. Os políticos então gastam milhões nas suas campanhas para depois ganhar salários que vão de R$ 4 mil a R$ 8 mil. A vontade de servir a população é muito maior que esses detalhes como salário. Depois se acontece algum imprevisto está lá o George Yunes para ajudar todo mundo com empréstimos sem juros e sem data de pagamento.
O caso de São Paulo é referência importante porque se multiplica por todas as regiões do País. O fato de haver um pedido de impeachment contra o prefeito não impede a atuação desabrida e independente dos vereadores. Todos são abnegados. Não importa o grupo político, não importa quem esteja na prefeitura, o importante é continuar na Câmara Municipal. Nesse ponto os vereadores paulistanos são chatos mesmo. Não querem sair das suas cadeiras de jeito nenhum. É essa mania besta de sempre colocar em primeiro lugar o interesse da coletividade, a vontade de transformar a cidade, torná-la mais habitável, mais generosa, mais humana. Por isso a questão não é ser contra ou a favor de Celso Pitta. É saber qual o melhor caminho para permanecer na Câmara e ajudar São Paulo é claro.
O número de atitudes altruísticas, de desapego a valores menores, tem crescido tanto ultimamente que já dá para começar a acreditar em fadas.
FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





