A maioria dos empresários brasileiros está alheia à política. A constatação é de Caio Magri, diretor-executivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Oscip criada em 1998 em São Paulo. Mas, segundo ele, há dois grupos minoritários que têm participação efetiva na vida pública do País. Um atua de forma "absolutamente íntegra", na construção de políticas gerais para toda a sociedade. E outro age de forma "perversa", criando bancadas parlamentares para defender seus próprios interesses.

O diretor aplaude a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que no mês passado proibiu as doações de empresas para campanhas eleitorais. E, em tempos de Operação Lava Jato, ressalta que é crescente o número de empresas brasileiras que se comprometem com a ética. Tanto é que o Instituto Ethos, criado por um grupo de 11 empresários, hoje tem 600 empresas afiliadas. Magri também conta que os programas de integridade (compliance) se espalham pelo País.

Como o senhor avalia a participação do empresariado brasileiro na política? Ele atua só na defesa de interesses próprios ou vem apresentando uma participação mais ampla?
O empresário brasileiro tem tido diversas formas de atuação na política. Alguns têm sido absolutamente íntegros, trabalhando na construção de políticas públicas gerais. Outros têm defendido posições junto com a sociedade. Agora, o conjunto do empresariado brasileiro ainda está alheio, deixando o barco correr em função dos seus interesses. Tem um terceiro grupo que atua de forma bastante perversa, que financia campanhas eleitorais, que cria bancadas próprias no Congresso. Mas a grande maioria está alheia a uma participação política efetiva.

Qual o limite para a atuação do empresário junto ao Congresso? O lobby acontece no mundo inteiro, não é?
Precisamos regulamentar o lobby. No mundo inteiro existem regras para o lobby. Temos que ter uma legislação para regulamentar a legítima defesa de interesses setoriais e coletivos. Agora, interesse de uma única empresa, certamente a sociedade rejeita.

Como o senhor avalia as bancadas setoriais que existem hoje no Congresso?
Não há transparência, não há regras de relacionamentos.

A Operação Lava Jato levou para a cadeia dirigentes das maiores empreiteiras do País. O senhor concorda com a ideia de que, até agora, no Brasil, só os políticos apareciam como corruptos? Concorda que os empresários (corruptores) estavam sendo poupados até agora?
De forma nenhuma. Não concordo que a Lava Jato está inaugurando essa questão. O problema é que, nas outras operações, como Castelo de Areia e Satiagraha, houve forças políticas que conseguiram bloquear o processo. Mas a Justiça Federal tinha instrumentos para colocar na cadeia muitos empresários. Agora, além de mais evidências, você tem um ambiente em que a sociedade não permite essa impunidade mais. Agora, está acontecendo o contrário: os políticos estão soltos e os empresários, presos. Tem que estar os dois na cadeia. Os empresários que são responsáveis, que querem de fato buscar sustentabilidade no seu negócio, estão investindo cada vez mais para construir programas de integridade nas suas empresas, programas capazes de mitigar riscos e corrigir condutas.

Os programas de integridade (compliance) estão realmente se disseminando pelo Brasil?
Se existe um mercado de trabalho que está crescendo dentro das empresas, é o de funcionários contratados para exercer ferramentas de controle interno, de investigação, de procedimentos para ajuste de conduta. Isso está crescendo e de forma muito importante no Brasil e no mundo.

Mas quando a alta administração não tem compromisso com a ética, esses programas não funcionam, não é?
Estou partindo do princípio de que o empresário é responsável, é comprometido com a sustentabilidade da sua empresa. A primeira coisa é a alta administração se comprometer. Aí constrói, junto com seus diretores e executivos, os programas de integridade. E dá autonomia para esses programas agirem. Ela mesma (alta administração) pode ser investigada. Essa estrutura tem sido bem sucedida em empresas como a Siemens, que criou talvez os melhores e mais consistentes programas de integridade de que a gente tem notícia. No dia 9 de novembro, serão apresentadas e premiadas as empresas do Cadastro Pró-Ética da CGU (Controladoria Geral da União). Será no Rio de Janeiro, na Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro). São empresas premiadas por terem programas de integridade consistentes.

Qual a relação da CGU com a iniciativa privada?
A CGU tem quatro grandes missões: fazer o controle interno do governo federal; responsabilizar servidores por condutas indevidas; responsabilizar as empresas por condutas indevidas na relação com o governo federal; e criar programas de combate à corrução. Ela está cada vez mais voltada à prevenção. Nós temos de mudar a cultura de corrupção no Brasil. É um processo longo. As empresas podem ser corrigidas com uma velocidade maior. Já a sociedade precisa de tempo, de exemplos, de acabar com a impunidade. Precisamos de uma mudança cultural.

O senhor está otimista quanto a essa mudança?
Sim. Nós vamos construir um país melhor, capaz de criar cada vez mais ferramentas de controle social, de transparência. Houve alguns importantes avanços nos últimos anos: a Lei de Acesso à Informação, o Portal da Transparência, a Lei Anticorrupção, a Lei de Conflitos de Interesses. E a gente percebe que a sociedade definitivamente não está mais tolerando a corrupção. Acabamos com o financiamento de campanha por parte das empresas. Foi uma decisão do Supremo muito importante. Estamos melhorando o ambiente em que as coisas acontecem. Eu tenho esperanças.

Por que uma empresa não deve fazer doações para campanhas eleitorais?
Porque empresa não vota. Empresa não tem esse direito de ser um ator dentro de um processo democrático. As sociedades que estão mais bem organizadas do ponto de vista da democracia não permitem que as empresas exerçam esse papel, que é do cidadão. As empresas têm interesses próprios, que não são interesses da sociedade. Quando uma empresa doa R$ 350 milhões, como foi na última eleição a doação da JBS, por que faz isso? Doa para todos os candidatos, distribui (dinheiro) à vontade. É claro que é para criar uma base de eleitos apoiados por ela. A decisão do Supremo foi acertada. Agora é preciso mantê-la. O golpe que vão tentar dar através do senhor Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) é fazer uma mudança constitucional, colocando a possibilidade da doação pelas empresas. Isso é absurdo.

Qual o papel do Instituto Ethos no combate à corrupção?
Ele foi criado para fazer um diálogo com as empresas, para fortalecer a gestão da integridade e da sua relação com o setor público de forma transparente, justa e responsável. Em 2006, criamos o Pacto Empresarial pela Integridade, demonstrando que as empresas podem assumir compromissos de não cometer ato ilícito na relação público-privado. Nós defendemos desde o início processos de melhoria do ambiente regulatório, atuando na defesa da Lei da Ficha Limpa, da Lei do Acesso à Informação, da Lei Anticorrupção. Defendemos também, junto ao Congresso Nacional e ao Poder Executivo, outras políticas que reduzam a corrupção no Brasil.

Qual a origem da corrupção no entendimento do senhor?
São várias: um sistema político pouco transparente; um Estado que não tem mecanismo de controle; uma influência muito grande do poder econômico sobre as decisões do governo; um comportamento histórico e cultural conivente com situações de levar vantagem em tudo; a pressão do mercado sobre seus executivos para obterem resultados a qualquer custo, sem medir consequências; um ambiente regulatório insuficiente. São várias razões. Não tem bala de prata, assim como não tem bala de prata para acabar com a corrupção.

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