Ética na política
Luiz Carlos Correa Soares
A releitura do artigo ‘‘A revolução pela catástrofe’’, de Christiane Galus, do jornal ‘‘Le Monde’’, publicado pela ‘‘Folha de S.Paulo’’ de 26 de dezembro de 99, traz inevitáveis correlações com as coisas da política. Para rememorar o tema, destacamos que estudos paleontológicos indicam que a mais antiga grande catástrofe planetária conhecida ocorreu há cerca de 440 milhões de anos, no fim do período ordoviciano. Outra ocorreu no devoniano superior, há 365 milhões de anos, mais uma no fim do permiano, há 250 milhões de anos e outra há 210 milhões de anos, no triássico superior.
Mas a catástrofe mais badalada e mais conhecida do grande público ocorreu ao fim do período cretáceo, há 65 milhões de anos, quando o impacto de um meteoro de 10 quilômetros de diâmetro na região que hoje corresponde a Yucatán, no México, provocou por 500 mil anos fluxos monstruosos de lavas, exterminando grande parte dos seres vivos da época, inclusive os dinossauros.
Os nossos modernistas neoliberais gostam de atribuir a designação de ‘‘jurássicos’’ a todos os que se opõem ao pensamento único da tal ‘‘modernidade’’. No seu entender, a qualificação teria um sentido pejorativo fulminante porque estaria incluindo todos nós, discordantes, no rol dos seres pré-históricos, como arautos do atraso e contemporâneos da extinção dos dinossauros.
Acontece que esses desinformados e enganadores incorrem no erro histórico de ‘‘apenas’’ algo em torno de 60 milhões de anos, porque o período jurássico, um dos três da era mesozóica, sucedeu ao triássico e antecedeu ao cretáceo. Este sim, foi o período em que mais se desenvolveram – e, inclusive, acabaram sendo extintos – os dinossauros, pelas razões acima.
Cabe destacar que essas informações, com desprezíveis variações, estão disponíveis em qualquer enciclopédia de consulta para estudantes do segundo grau. Veja-se no que dá quando esses apressadinhos neoliberais tentam mostrar sabedoria e fazer frases de efeito, baseados apenas nos ‘‘rigorismos científicos’’ dos filmes do Spielberg e na presunção de que são ilhas de sapiência, cercadas de ignorância e de ignorantes por todos os lados!
Do meu ponto de vista, ser um ‘‘jurássico’’ – ou mais apropriadamente, um ‘‘cretácico’’ – é infinitamente mais dignificante do que pertencer a qualquer uma dessas tantas espécies de ‘‘invertebrados rastejantes, subaquáticos e subterrâneos’’ hoje existentes no mundo da política e da administração pública em nosso país.
Estes, sim, são seres ignóbeis e desprezíveis (afora outros qualificativos impublicáveis), com comportamentos subservientes a interesses de todo o tipo, menos os da Nação e do povo brasileiro. À falta de referências pré-históricas similares, uma equivalente classificação metafórica talvez pudesse incluí-los no período de preexistência de algum ancestral das serpentes, ou das hienas ou dos chacais.
Não me atreverei, porém, a fazer tal classificação por duas razões, entre outras: uma autodeclarada falta de qualificação científica aprofundada nesse campo e uma inata aversão por falsas frases de efeito e presunções de quaisquer naturezas, tais como as que supõem pseudo-sapiências próprias ou pressupõem ignorâncias alheias.
Mas uma pergunta parece inevitável: para perpetuar um fim, politicamente falando, a esse tipo de gente teremos que aguardar a ocorrência de outra catástrofe planetária com dimensões e consequências equivalentes às citadas acima ou seremos capazes, nós mesmos, de dar conta do recado? As eleições municipais de outubro próximo podem ser um pequeno porém oportuno começo para matar, no ninho, algumas serpentes políticas já criadas, as serpentinhas nascentes e até as que estão se animando a romper a casca do ovo. Isso já seria uma significativa contribuição ao aperfeiçoamento das espécies políticas.
‘‘Antes tarde do que nunca’’ e ‘‘é melhor prevenir que remediar’’ são ditos populares de extraordinária e comprovada sabedoria. Ficamos, então, com esta sapiência verdadeira, a do povo. Esse povo que só erra, às vezes, quando vota, mas que, com um certo vagar e por conta de grandes dissabores, está apreendendo.
- LUIZ CARLOS CORREA SOARES é vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), diretor da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) e secretário-geral da Secção de Profissionais da Union Network International (Uni-Américas)

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