O Brasil vive períodos cíclicos, alternando estados de extrema euforia e profunda depressão. Nas últimas semanas, andamos meio na baixa. E voltam à crônica do cotidiano algumas expressões já consagradas no imaginário popular, como: à beira do abismo, o País não tem jeito mesmo, todo político é ladrão e por aí vai.
A imprensa dedica generosos espaços à compra de votos, aos precatórios, às ligações perigosas do PT e a outros escândalos do gênero. Dá-se ênfase aos indicadores desfavoráveis na balança comercial, à suposta iminência de medidas recessivas, a problemas no crédito externo. Como o País, depois de décadas de calamidade inflacionária, vive um raro período de estabilidade, até parece que alguns setores sentem-se saudosos das metáforas catastrofistas.
Na falta de fortes emoções, numa economia carente de crises profundas, passamos a dar importância às nuvens cinzentas que obscurecem o cenário, aderindo à nova onda de pessimismo.
Ora, vivemos numa democracia e é próprio dos regimes democráticos o livre exercício da expressão. O círculo do medo que prevaleceu em outras épocas foi rompido há muito tempo. É natural, portanto, que os jornais ostentem manchetes fortes, como as dos escândalos financeiros e políticos, pois, segundo a máxima atribuída a William Hearst, ‘‘más notícias são boas notícias’’.
Seria, no entanto, leviano e irresponsável confundir esses fatos pontuais e localizados com a situação geral do País.
Em vez de assumirmos uma postura moralista e inquisitória, deveríamos nos congratular por termos uma mídia atuante e investigativa, que passou por difíceis períodos de censura. Finalmente, não estamos varrendo as mazelas nacionais para baixo do tapete. E isso é muito positivo, pois nos torna mais responsáveis e vigilantes, mais atentos no respeito às leis, mais dispostos a exercer plenamente a cidadania.
Ressalte-se que essa circunstância - envolvendo escândalos financeiros e denúncias contra políticos -, seguida de uma onda moralista, não é exclusividade brasileira. Ocorre em muitos países e diferentes culturas. Mas, ao contrário de outras épocas, esses fatos têm reforçado uma saudável preocupação com a ética, na política e nos negócios.
Há indicações concretas de que avançamos no cuidado com as coisas públicas e no respeito às instituições. Na área privada não é diferente. Um número significativo de empresas, no Brasil e em muitos países, elabora e torna público seus códigos de ética, que regulam suas relações com os diversos públicos de seu interesse.
Essa preocupação torna-se mais abrangente pela vigência da globalização e estende-se aos direitos dos consumidores, ao meio ambiente, enfim, à cidadania, agora defendida por códigos, normas e um grande número de organizações não governamentais.
A ética, por esses motivos, torna-se mais um fator competitivo no mercado internacional. Por essas mesmas razões, o País deve rever seus processos e procedimentos, para ganhar mais credibilidade no cenário das nações. Nesse sentido, torna-se imperioso resgatar de vez a auto-estima brasileira, a confiança no País e em suas instituições. Para tanto, é fundamental que cada agente social cumpra sua tarefa, contribuindo solidariamente para a construção da Nação.
Para que se restaure de vez a esperança dos brasileiros no futuro do País, mais do que nunca é necessário que as relações, na esfera pública ou privada, sejam pautadas por estritos conceitos éticos.
- CARLOS EDUARDO MOREIRA FERREIRA, advogado e industrial, é presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo.

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