ÉTICA E IMPRENSA
Um site da Internet - comunique-se.com.br - traz a notícia que o ex-governador do Rio Grande do Sul, Antonio Brito, está processando o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, alegando que seu nome vem sendo boicotado pela direção da empresa. O motivo da discórdia teria sido a privatização da Companhia Riograndense de Telecomunicação - CRT, à época do governo de Brito, e que, segundo seus adversários, teria beneficiado o grupo RBS, dono da maior rede de comunicação do Estado e, obviamente, concorrente do Correio.
O texto gerou uma acirrada e democrática discussão entre internautas de todo o País aliás, este é um dos objetivos principais do site mas que redundou na análise sobre a influência da imprensa gaúcha no cenário nacional ou se os jornais em formato tablóide são ou deixam de ser os mais adequados à leitura. Perdeu-se assim, a grande oportunidade de aprofundar o debate sobre o fato em si, ou seja, se a censura imposta pelo jornal é eticamente correta.
Não é preciso ser nenhum erudito em comunicação para saber que o papel da imprensa é buscar a verdade. Há quem diga que sua função deve ser, antes de tudo, social, para só então se transformar em negócio. Talvez o fundamental nesta questão seja entender que, independente da ordem de atribuições, o papel reservado ao jornalismo é, em qualquer circunstância, informar o leitor de forma transparente e clara. Teorias à parte alguém pode querer questionar o que é a verdade, afinal, segundo a Bíblia, nem Cristo respondeu a Pilatos o certo é que a imprensa não pode se omitir em nenhum instante, doa a quem doer. A partir de então é que começam a surgir os questionamentos sobre a postura ética dos meios de comunicação, principalmente em relação a determinadas posições assumidas na defesa deste ou daquele segmento social.
Ora, se o papel da imprensa é o de fiscalizar as ações coletivas ou individuais, tanto do Estado como dos cidadãos, que isenção teria ela a partir do instante que se aliasse qualquer destes segmentos? A rigor, no Brasil, os meios de comunicação podem e devem - se aliar na defesa de idéias, mas jamais no propósito de implementá-las. Pode-se, por exemplo, assumir a bandeira de um determinado regime político, porém em hipótese alguma sustentar este ou aquele partido como sendo o mais adequado à sua execução. Mas como isso será possível na pátria-amada, pergunta o jornalista Eugênio Bucci em seu livro Sobre ética e imprensa, se ela a imprensa se converteu num negócio transnacional, oligopolizado em conglomerados da mídia que trafica influência junto aos governos para conseguir mais concessões de canais e mais facilidades de financiamento públicos? Onde está a independência do jornalismo?
Nos Estados Unidos, a quem muitos cultuam como verdadeiros próceres da democracia, por uma questão já arraigada em seus valores, os meios de comunicação fazem a defesa intransigente não apenas das idéias, mas de sua concepção, forma e implementação. São parciais inclusive na defesa de candidaturas a cargos públicos ou na liturgia política deste ou daquele partido. Mas independente da posição, o que importa é que lá, ao contrário daqui, esta postura dá-se de forma límpida. Pois é exatamente deste conflito ideológico que nasce a contradição; e jornalismo sem contraposto não há razão de ser. Aliás, a ética só existe porque a comunicação social é lugar de conflito. No Brasil, as tentativas de manipulação da opinião pública através da imprensa foram e em alguns casos ainda são uma prática usual. Manipular as massas com o intuito de abrandar ou mesmo esconder as máculas em troca de favores, sejam eles público ou privados, foi ou é uma das regras básicas adotadas por algumas redações. A única forma de corrigir estas mazelas é a sociedade estar atenta e cobrar da imprensa o dever em cumprir minimamente sua função.
Se a isenção é de fato impossível, uma vez que opinar é parte da função, cabe então discutir os limites ou as formas de transparência que cada órgão ou jornalista deve adotar. Estão aí os manuais de redação que buscam delimitar este espaço - o que sem dúvida é um grande avanço. Mas vale reiterar que a verdade com responsabilidade deve prevalecer sempre, afinal, ser imparcial é tarefa para juiz de futebol. E olha lá!.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba.





